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— Desidratador Solar de Alimentos —

Todo ano é a mesma coisa: na estação de cada fruta, você tem uma grande produção, e não consegue consumir tudo, então fica lá, estragando. Passa a estação, e você fica o resto do ano sem ter a fruta, ou tendo que comprar no supermercado. Mas não tem que ser assim! É claro que a chave é preservar o excesso de produção, para poder consumir o ano todo. Congelar e fazer compotas são modos de fazer isso, mas uma maneira excelente de preservação de alimentos é a desidratação – quem não gosta de uvas passas, banana passa, tomate seco e manga desidratada? Além de efetiva preservação, essa técnica gera produtos diferenciados que tem um ótimo valor de mercado. E o melhor é que tudo isso pode ser conseguido praticamente grátis, sem consumo de energia, através de um desidratador solar!

Apresento aqui o melhor modelo de desidratador solar “faça você mesmo” conhecido atualmente (ou pelo menos o preferido de muita gente). Este não é qualquer desidratador de alimentos – é o resultado de 20 anos de testes e experimentações por uma equipe dedicada de pesquisadores e técnicos de uma universidade americana. Um equipamento que você pode construir você mesmo, para desidratar e conservar uma infinidade de frutas, e outros alimentos.

Solar-Dehydrator jpg

desidratador solar plano

Para maiores informações sobre este desidratador solar, inclusive descrição detalhada de como construir e operar (em inglês), visite o site: https://www.motherearthnews.com/diy/tools/solar-food-dehydrator-plans-zm0z14jjzmar

 

TELHADOS VERDES — Por que eles são demais, e como construí-los

casa linda

Telhados verdes são coberturas em casas, prédios e outros edifícios que contêm uma camada de terra e vegetação. Eles têm uma capacidade significativa de retenção de água da chuva e devolução para a atmosfera por evapotranspiração. Também ajudam a diminuir a poluição, reduzir as ilhas de calor, favorecem a biodiversidade (especialmente avifauna, abelhas, etc.), além de deixarem a cidade muito mais bonita. Eles também podem ser usados para produzir alimentos (horta sobre o telhado!), além de lindas flores, ervas, etc. Eles chamam atenção por seu aspecto inusitado, pitoresco e extraordinariamente natural. Além disso, dão excelente conforto acústico e térmico à casa. Por isso tudo, não é surpreendente que despertem o interesse de tantos bioconstrutores e permacultores.

Telhados verdes podem ser construídos de diversas maneiras, com técnicas diferentes. A técnica mais convencional consiste de uma laje de concreto com declividade de pelo menos 2% (para evitar a estagnação da água), fortemente impermeabilizada por manta asfáltica ou manta plástica grossa, sobre a qual se adiciona uma camada de argila expandida para propiciar drenagem, uma manta permeável e, por cima desta, uma camada de solo onde vão as plantas.

rooftop garden em Guangxi - China

Outra opção mais simples e ainda assim muito efetiva é simplesmente encher sua laje de vasos, e plantar de tudo! Para ver o que é possível com essa abordagem, leia este inspirador ARTIGO.

Agora, telhados verdes também podem ser feitos de forma mais simples e barata, sem a necessidade de se ter uma laje. Em cima de um madeiramento convencional de telhado, ao invés das telhas você instala um “telhado” de chapas de compensado de obra tipo “madeirite” (existem hoje no mercado placas semelhantes feitas a partir de caixas de leite longa vida recicladas, que podem ser uma excelente alternativa). Sobre as chapas, você prega sarrafos de 5 cm de altura, em posição horizontal, em linhas espaçadas a cada 60 a 75 cm, por todo o telhado — esses sarrafos criarão barreiras que ajudarão a manter a terra no lugar. Deve-se instalar também uma tábua de madeira na posição vertical, que suba 10 cm acima do nível do compensado ao redor de todo o telhado, para conter a terra. Por sobre isso tudo, você instala uma camada de carpete de forração (de preferência carpetes velhos, que podem ser obtidos de graça em reformas de prédios), uma lona plástica impermeável e resistente, e mais uma camada de carpete — assim, a lona estará protegida do contato direto com a madeira ou a terra, evitando perfurações ou roturas. Por fim, cubra com uma camada de 10 cm de terra misturada com composto orgânico, e plante placas de grama. Está pronto!

A grama deve ser plantada em dias chuvosos, para que pegue. Uma vez que a grama estiver estabelecida e a terra estabilizada sobre o telhado, você poderá plantar outras coisas, como flores, ervas e hortaliças, etc., diretamente sobre a grama. Agora, se você não quiser plantar grama, pode simplesmente cobrir a terra com uma boa camada de palha (cobertura vegetal morta), que evitará que a terra escorra em dias de chuva. Conforme a palha se degradar, haverá o crescimento natural e espontâneo de plantas que, com suas raízes, estabilizarão a terra permanentemente.

telhado verde grama

Alguns cuidados são necessários em relação ao telhado verde, e os principais pontos são estrutura, impermeabilização e manutenção.

Deve-se ter em mente desde o início que telhados verdes são substancialmente mais pesados que outros tipos de telhados, ficando ainda mais pesados em dias de chuva. Por isso, toda a casa, desde a fundação, paredes até a própria estrutura do telhado, deve ser feita com resistência suficiente para comportar esse peso.

Além disso, ninguém quer um telhado que vaze! Além do incômodo das goteiras, vazamentos também levam ao apodrecimento do madeiramento, trazendo sérios riscos ao telhado e à construção. Por isso, as medidas citadas acima, ou outras equivalentes, devem ser observadas com a máxima seriedade, e quaisquer infiltrações que venham a ocorrer devem ser prontamente sanadas.

Normalmente, telhados verdes são relativamente sazonais: na época das secas, as plantas secarão (e o telhado não parecerá tão verde), para na próxima estação chuvosa voltarem a florescer. Lembre-se: todas as lindas fotos que vemos de telhados verdes são tiradas na época das chuvas! Não espere que seu telhado se pareça com aquilo o ano todo. Teoricamente, você poderia manter seu telhado irrigado, mas na prática isso raramente é feito, até mesmo por representar um gasto excessivo e desnecessário de água, que pode anular ao menos em parte os benefícios ambientais desse tipo de telhado. Porém, aqui há opções: você pode contar com um bom sistema de captação e armazenamento de água da chuva, com uma cisterna sobre o solo ou subterrânea, e uma bomba solar que leva a água até uma caixa sobre o telhado, para uso em irrigação. Isso é válido principalmente nos casos em que se cultiva alimentos no seu teto verde.

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Outro ponto que merece atenção é a manutenção, especialmente em relação ao crescimento de árvores. Deve-se ficar de olho, e cortar árvores que inventem de crescer no telhado, pois elas têm o potencial de perfurar a camada de impermeabilização e literalmente destruir o telhado. Mas não arranque as árvores, pois com isso você arrancará também uma grande porção de terra do telhado — ao invés disso, é melhor apenas cortá-las rente à camada de solo, deixando suas raízes lá, que continuarão atuando na fixação do solo, sendo portanto até úteis.

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QUESTÕES FREQUENTES EM RELAÇÃO AO BANHEIRO SECO

Pode-se dizer que o banheiro seco de compostagem é o sistema de saneamento mais ecológico e sustentável que existe, sendo por isso mesmo o preferido na permacultura. Nesse sistema, os excrementos (fezes e urina) são depositados em um local devidamente contido, sem contaminar o meio ambiente, e cobertos com uma variedade de materiais naturais, chamados “materiais de cobertura”, formando camadas. Essa mistura é então mantida intocada por períodos que podem ser de 6 meses em regiões de clima tropical, a 1 ano em regiões de clima temperado, chegando até a 2 anos nos climas muito frios. Nesse período, que é crítico, ocorre o fenômeno da compostagem, em que microrganismos naturalmente presentes nesses materiais se proliferam, digerindo essa matéria orgânica e transformando-a em húmus, um fertilizante agrícola orgânico riquíssimo em nutrientes do solo.

O banheiro seco de compostagem traz enormes vantagens:

  • Não utiliza água.
  • Não gera esgotos ou qualquer outro tipo de poluição.
  • Resulta em fertilizante de alta qualidade, permitindo a devolução dos nutrientes ao solo para a produção de mais alimentos, recuperação ambiental, etc. Ou seja, não há desperdício de nutrientes, e sim sua reciclagem completa.

Embora desconcertantemente simples, essa tecnologia é muito recente — a compostagem só foi desenvolvida a partir dos anos 1940, com o surgimento do movimento de agricultura orgânica, e a compostagem de excrementos humanos somente a partir da década de 1970, sendo que o banheiro seco de compostagem só começou a se popularizar com a publicação dos primeiros livros sobre o assunto nos anos 90 — meros 20 anos atrás! E ainda hoje o sistema é totalmente novo para muitas pessoas, então é de se esperar que haja muitas dúvidas a esse respeito.

Abaixo, listamos algumas das perguntas mais frequentes associadas ao banheiro seco de compostagem.

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O que fazer com o papel higiênico?

O papel higiênico deve ir para a composteira. Papel higiênico é constituído de celulose, que nada mais é que matéria vegetal. Ele se decompõe de forma assustadoramente rápida, contribuindo para o teor de matéria orgânica do seu composto. Ainda presta uma contribuição modesta na absorção de umidade e aeração da pilha de composto. Portanto, papel higiênico deve ser adicionado junto com as fezes, no banheiro seco. Pode jogar sem medo, não vai entupir nada!

Urina junto ou separado?

Este é um assunto que divide opiniões, mas a verdade é que as duas opções existem e são válidas, cada uma com suas vantagens e desvantagens.

As principais vantagens de adicionar a urina juntamente com as fezes são a praticidade (você usará o banheiro seco da mesma forma que usa a privada de descarga convencional, ou seja, tanto para defecar como para urinar), o fato de ela ajudar a manter a umidade da pilha de composto, além de adicionar importantes nutrientes, especialmente o nitrogênio (nutriente do solo mais abundante na urina), gerando portanto um composto final mais rico em seu valor como fertilizante. Outra vantagem é o fato que a ureia presente na urina se converte em amônia, contribuindo para a destruição de patógenos durante a compostagem.

Porém, adicionar toda a urina junto com as fezes no banheiro seco traz também importantes desvantagens. Uma delas diz respeito ao volume: a urina é produzida diariamente em um volume muito maior (10 vezes maior, em média) que o volume de fezes produzido no mesmo período. Por isso, adicionar toda a urina juntamente com as fezes faz com que os baldes (no caso do sistema horizontal) e as composteiras se encham muito mais rapidamente, o que se reflete em uma carga de trabalho muito maior com manutenção do seu sistema, ou seja, você terá que esvaziar os baldes, e manejar composteiras com mais frequência, o que lhe tomará mais tempo de sua vida. Além disso, mais volume significa mais composteiras, ou composteiras maiores, que consequentemente ocuparão mais espaço. Você também precisará coletar material de cobertura com mais frequência, pois será usado em maior quantidade, especialmente para absorver todo aquele excesso de umidade representado pela urina.

Outra grande desvantagem desse sistema (toda a urina junto com as fezes na composteira) diz respeito à perda de nutrientes, especialmente o nitrogênio. Conforme já mencionado, o nitrogênio está presenta na urina predominantemente na forma de ureia; porém, durante a compostagem essa uréia se converte em amônia, a qual se perde por volatilização — uma perda que pode ser superior a 90% desse que é um dos mais vitais nutrientes para as plantas.

A abordagem alternativa é separar a urina em um recipiente à parte. Com isso, reduz-se enormemente o volume a ser compostado, reduzindo portanto o trabalho de manutenção do sistema, a necessidade de material de cobertura e o espaço ocupado pelas composteiras.

Deve-se ressaltar que quem precisa ser compostado são as fezes, já que têm um grande potencial de transmitir doenças. Em contraste, a urina é, em condições normais, praticamente estéril (na verdade, hoje sabe-se que a urina e o sistema urinário não são estéreis, e sim contêm uma microbiota específica que pode desempenhar papéis importantes na manutenção da saúde).

A urina é mais rica em nutrientes do solo que as fezes: das nossas excreções diárias, 90% do nitrogênio, 50 a 65% do fósforo e 50 a 80% do potássio estão contidos na urina. A fração sólida da urina é composta em média de 16% de N, 3,7% de P e 3,7% de K. Essa informação torna óbvio seu potencial como fertilizante. (Para maiores informações sobre o uso da urina como fertilizante, por favor leia este ARTIGO dedicado ao assunto.

Agora, aqui temos que deixar uma coisa bem clara. Muitas pessoas, quando se fala em separar a urina, ficam paranoicas por causa daquele xixizinho que normalmente sai na hora do “número dois”. Mas isso é besteira! Não é para se preocupar com isso. Urina separada não significa que qualquer quantidade de urina será prejudicial ao processo de compostagem; significa apenas que não é para usar aquele banheiro ou balde para fazer xixi. Então, aquele xixizinho eventual, não precisa se preocupar, pode fazer sem medo! Na verdade, uma certa quantidade de urina é sempre benéfica à compostagem de material do banheiro seco, mesmo quando se opta por um sistema de urina separada, pois, como já discutimos, ela auxilia na manutenção da umidade na composteira e na destruição de eventuais patógenos.

Virar ou não virar?

Existe um costume bastante arraigado entre as pessoas que praticam a compostagem, especialmente agricultores orgânicos, de virar (ou seja, remisturar) o composto periodicamente, durante o período da compostagem. Essa prática traria as seguintes vantagens: aerar a massa sendo compostada, favorecendo a decomposição aeróbica; fragmentação e homogeneização do composto, e também a redistribuição da umidade, permitindo uma decomposição mais completa e rápida, rendendo ainda um produto final com melhor aspecto.

Porém, embora tudo isso seja verdade, a prática tem comprovado que a viragem do composto não é necessária — talvez o processo leve um pouco mais de tempo, e você tenha um produto final menos homogêneo, mas ainda assim terá o seu composto, bom e seguro.

O processo de viragem traz duas desvantagens. A primeira e mais óbvia é o trabalho que dá virar o composto, especialmente se for um volume grande. Outro problema diz respeito a um risco à saúde: durante o processo de decomposição, há uma intensa proliferação de fungos no composto, e a viragem põe em suspensão no ar uma grande quantidade de esporos, o que pode representar um risco de alergias e mesmo infecções respiratórias.

Considerando tudo isso, e ainda o risco de contaminação ambiental com fezes (ou seja, material fecal antes da completa degradação), conclui-se que não se deve virar o composto contendo material do banheiro seco. Deixe-o ali, intocado por todo o período de compostagem recomendado, e você terá o seu composto. Vale ressaltar que os trabalhos científicos que comprovaram a eficácia da compostagem na eliminação de patógenos foram realizados sem viragem do composto, o que confirma que ela é desnecessária.

Não vai feder?

A resposta curta para essa pergunta é: não. Um banheiro seco adequadamente manejado não deve cheirar mal, tampouco a composteira deve ter qualquer cheiro desagradável. Agora, há apenas dois breves momentos em que você inevitavelmente sentirá maus odores. Um deles, obviamente, na hora de usar o banheiro, especificamente no caso da defecação. Não apenas porque isso fede em qualquer banheiro, mas há também outro pequeno fator: em privadas convencionais, as fezes, uma vez liberadas, são imediatamente submersas em água, o que ajuda a minimizar a liberação de odores. No banheiro seco, por outro lado, as fezes cairão… no seco. Portanto, até que você termine o serviço e cubra com o material de cobertura, haverá uma liberação de odores fecais superior ao que ocorreria em um banheiro convencional. Mas, na verdade, a diferença não é muito grande.

O outro momento em que haverá liberação de odores é na hora de esvaziar o balde na composteira, no caso do banheiro seco horizontal. Esse momento durará cerca de cinco minutos, entre você esvaziar o balde, limpá-lo e adicionar material de cobertura à pilha de composto. Cinco minutos, uma vez por semana — não é pedir muito, é? Certamente um pequeno sacrifício que vale a pena, considerando os enormes benefícios oferecidos pelo banheiro seco. Se, ainda assim, você se deixar desencorajar por isso, ainda tem a opção do banheiro seco vertical.

Exceto nos momentos acima citados, um banheiro seco e uma composteira bem manejada não devem jamais emitir qualquer odor. O único motivo para maus odores é aplicação insuficiente ou inadequada de material de cobertura. Alguns materiais de cobertura são menos eficientes em bloquear odores; por exemplo, serragem muito grossa, ou palha. Prefira serragem média, ou uma mistura de serragem de diferentes granulometrias, para melhores resultados. Palha, folhas mortas e outros restos vegetais devem ser, preferencialmente, triturados para uso como material de cobertura. Cinzas de fogão e forno a lenha, churrasqueiras, fogueiras, etc., que usualmente contêm algum resto de carvão, também podem ser adicionadas como material de cobertura e são úteis na eliminação de odores.

Uso de aditivos

Muitos manuais de compostagem citam ou recomendam a aplicação de calcário agrícola às pilhas de composto, para neutralizar acidez, desinfetar o composto, fornecer nutrientes (cálcio e magnésio), etc. O mesmo pode-se dizer das cinzas de madeira, que têm constituição semelhante e os mesmos efeitos.

Você pode aplicar cinzas ou calcário em pequenas quantidades no composto, seja no balde, misturado ao material de cobertura, ou sobre a pilha de composto na composteira, mas isso não é necessário. A adição de grandes quantidades não é recomendada, pois interferirá negativamente na degradação microbiana da matéria orgânica e desbalanceará demasiadamente a composição química e de nutrientes do composto.

Conforme já citado, a adição de cinzas de fogão a lenha ao composto pode ajudar a bloquear odores (embora geralmente não seja necessário).

Problemas com pragas

Esta é uma preocupação que atinge muitas pessoas interessadas em começar a usar um banheiro seco, ou fazer compostagem em geral: “não vai atrair bichos? moscas? ratos? baratas?”

Trata-se de uma questão pertinente, já que você terá ali concentrada uma grande quantidade e variedade de materiais orgânicos que são sabidamente atrativos a essas pragas. Porém, o fato é que, assim como em relação aos odores, na prática nada disso deve constituir problema, devido à “magia” do material de cobertura. Basta você aplicar material de cobertura adequado, em quantidades adequadas, e estará livre de odores e pragas.

É conveniente ressaltarmos uma coisa: nem só de microrganismos é feita uma compostagem — macrorganismos, sejam eles fungos, insetos, larvas, vermes, anelídeos, etc., também são parte importante da compostagem. Todos sabemos que as minhocas são comuns e benéficas em qualquer processo de compostagem, não é? Muitas vezes, são adicionadas intencionalmente (vermicompostagem), embora isso não seja necessário. Minhocas nativas também costumam colonizar pilhas de composto.

Outros animais que costumam aparecer no composto são besouros (depositam seus ovos na matéria orgânica, onde se desenvolvem em larvas que podem ser até bem grandes!), e larvas de moscas.

Aqui, devemos fazer uma distinção. Existem inúmeras espécies de moscas, e nem todas elas são pragas. Claro que ninguém quer moscas domésticas ou varejeiras crescendo em sua composteira. Caso isso ocorra, você pode adicionar alguma quantidade de cinzas, fazendo uma camada sobre a composteira, pois isso inibe essas larvas.

Por outro lado, é comum aparecerem em composteiras larvas da mosca soldado negra (Hermetia illucens). Essas moscas não são pragas, e na verdade são bastante benéficas. Para maiores informações sobre a mosca soldado negra, por favor leia este outro ARTIGO.

É realmente seguro?

A compostagem de excrementos humanos e seu uso como fertilizante agrícola, embora desconhecidas de muitas pessoas, são práticas estabelecidas e consolidadas mundialmente, e sua segurança e eficácia têm sido comprovadas por inúmeros trabalhos científicos. Essas práticas são particularmente disseminadas em países asiáticos, sendo inclusive encorajadas por governos. Um caso exemplar é o Vietnã, onde mais de 90% dos agricultores usam banheiro seco de compostagem e empregam esses nutrientes rotineiramente em suas lavouras, orientados por normas técnicas do governo daquele país, as quais são devidamente embasadas em pesquisas científicas.*

Claro que essa segurança depende do cumprimento das recomendações descritas acima, respeitando sobretudo o tempo de compostagem. Também é necessário ressaltar que nada substitui as boas práticas de higiene alimentar, especialmente a prática de lavar bem as frutas e verduras, enfim alimentos consumidos crus, antes de comê-los.

Pode-se compostar também fezes de cães e gatos?

Esta é uma dúvida que muitos compostadores têm e, por falta de conhecimento, muitas pessoas acabam incluindo excrementos de animais de estimação em uma lista de itens proibidos da compostagem.

É fato que, assim como as fezes humanas, fezes de cães e gatos também têm o potencial de nos transmitir doenças (zoonoses), especificamente a larva migrans visceral, causada pelo Toxocara canis, e a toxoplasmose, causada pelo Toxoplasma gondii — o primeiro, um verme nematoide que parasita o intestino de cães, e o segundo, um protozoário coccídeo que tem como hospedeiro definitivo os gatos. Porém, já foi demonstrado cientificamente que o processo de compostagem é eficaz na eliminação de ovos e oocistos de vermes e protozoários parasitas.** Portanto, para efeitos de compostagem, fezes de cães e gatos podem e devem ser compostadas, da mesma forma e com o mesmo rigor que fezes humanas, podendo o composto resultante ser usado como fertilizante, igualmente.

 

Constipação de fundo moral:

“Quando percebi que estava literalmente cagando em água limpa, tratada, potável, fiquei constipado por anos. Felizmente, conheci a tecnologia do banheiro seco, e agora meus intestinos funcionam regularmente.”

— Brad Lancaster, autor de “Rainwater Harvesting for Drylands and Beyond”

 

Este post é uma extensão de um artigo anterior dedicado ao assunto banheiro seco.

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Referências:

* Jensen, P. K. et al. Hygiene versus fertiliser: the use of human excreta in agriculture – a Vietnamese example. International Journal of Hygiene and Environmental Health. 2008.
** Amorós, I. et al. Prevalence of Cryptosporidium oocysts and Giardia cysts in raw and treated sewage sludges. Environmental Technology. 2016.

Saneamento ecológico — Banheiro seco de compostagem

Pode-se dizer que o banheiro seco é o sistema de saneamento mais ecológico e sustentável que existe, sendo por isso mesmo o preferido na permacultura. Nesse sistema, os excrementos (fezes e urina) são depositados em um local devidamente contido, sem contaminar o meio ambiente, e cobertos com uma variedade de materiais naturais, chamados “materiais de cobertura”, formando camadas. Essa mistura é então mantida intocada por períodos que podem ser de 6 meses em regiões de clima tropical, a 1 ano em regiões de clima temperado, chegando até a 2 anos nos climas muito frios. Nesse período, que é crítico, ocorre o fenômeno da compostagem, em que microrganismos naturalmente presentes nesses materiais se proliferam, digerindo essa matéria orgânica e transformando-a em húmus, um fertilizante agrícola orgânico riquíssimo em nutrientes do solo.

Durante o processo de compostagem, a intensa competição microbiana assegura a destruição total de quaisquer patógenos eventualmente presentes nos excrementos, garantindo a segurança do uso desse húmus na adubação do solo para a produção de alimentos, sem gerar riscos à saúde humana. A elevação da temperatura no processo de compostagem termofílica* e a presença de amônia, decorrente da degradação da ureia**, também contribuem para a destruição de eventuais patógenos. Além de microrganismos patogênicos, também resíduos de produtos químicos e farmacêuticos são degradados pelas condições biológicas e químicas que ocorrem no processo de compostagem***.

O banheiro seco de compostagem traz enormes vantagens:

  • Não utiliza água. Pense só, utilizar um banheiro por toda a sua vida sem jamais utilizar um litro de água sequer!
  • Não gera esgotos ou qualquer outro tipo de poluição.
  • Resulta em fertilizante de alta qualidade, permitindo a devolução dos nutrientes ao solo para a produção de mais alimentos, recuperação ambiental, etc. Ou seja, não há desperdício de nutrientes, e sim sua reciclagem completa.

Tipos de banheiro seco

Existem basicamente dois tipos principais de banheiro seco: o tipo vertical e o horizontal. Se você pesquisar, encontrará uma infinidade de variações, e inclusive modelos comerciais disponíveis em muitos países, sendo que muitos são até bem caros, às vezes dependem de energia elétrica para funcionar, etc. mas que na verdade não oferecem qualquer vantagem efetiva sobre os modelos simples do tipo “faça você mesmo”. Por esse motivo, focaremos nossa discussão sobre banheiro seco nos modelos mais básicos, que também são os mais populares.

Banheiro seco vertical

O banheiro seco vertical, ou de composteira acoplada, consiste de uma estrutura onde o banheiro propriamente dito é construído diretamente acima de uma câmara de compostagem (composteira), que é bem vedada. Não se usa uma bacia sanitária comum (daquelas de descarga) — ao invés disso, o vaso sanitário consiste basicamente de uma caixa ou bancada que dê altura adequada para que o usuário possa sentar-se, com uma abertura guarnecida de assento e tampa, que podem ser aproveitados de privadas convencionais. Alternativamente, pode-se fazer a abertura no assoalho do banheiro, caso queira-se uma privada daquelas que se usa agachado (opção tradicional e bastante popular na Ásia, e que muitos afirmam ser mais natural e saudável).

A câmara de compostagem deve ter um tubo para exaustão de gases gerados no processo da compostagem, e uma abertura independente, com porta, para esvaziamento periódico.

Ao usar o banheiro, os dejetos caem dentro da composteira. Após cada uso, ao invés de se “dar a descarga”, lança-se uma certa quantidade de material de cobertura dentro do vaso sanitário, suficiente para cobrir os dejetos. E pronto! o banheiro está pronto para uso novamente.

Por material de cobertura entende-se uma variedade de materiais naturais, como serragem, palha de arroz, folhas mortas de árvores, capim, aparas de grama e outros restos vegetais (e.g. galhos e restos de podas) triturados, etc. Eventualmente outros materiais podem ser adicionados, como cinzas e terra, desde que não constituam uma porção principal do material de cobertura. Outros materiais orgânicos, como restos de cozinha, também podem ser adicionados.

A principal e mais óbvia função do material de cobertura é bloquear odores provenientes dos dejetos e restos orgânicos durante a compostagem. Outras funções incluem: absorver o excesso de umidade do composto, manter a aeração proporcionando a decomposição aeróbica e termofílica da matéria orgânica, proporcionar um substrato poroso ideal para a atividade microbiana, prover nutrientes ao composto pela decomposição do material de cobertura, etc.

Quando a câmara de compostagem se enche, esse banheiro deve ser interditado por todo o período de compostagem (6 meses a um ano, dependendo do clima local). Nesse período, deve-se usar outro banheiro. Por isso, geralmente banheiros secos verticais são construídos em módulos duplos: dois banheiros idênticos, lado a lado, com suas respectivas câmaras de compostagem, que são usadas alternadamente: seis meses uma, seis meses a outra.

Ao final do período de compostagem, abre-se a câmara por uma porta lateral ou traseira (acesso externo) para remoção do composto, que estará pronto para uso como adubo. O tamanho da câmara de compostagem varia conforme a intensidade de uso, mas em geral tem em torno de 1 a 2 metros cúbicos. Devido ao uso alternado, deve-se necessariamente construir no mínimo dois banheiros (para uso individual ou uma família pequena). Deve-se construir um número suficiente de unidades para sempre permitir o descanso por todo o período de compostagem.

A vantagem deste modelo de banheiro seco é sua praticidade de uso, já que é só usar e usar, por seis meses, sem ter que se preocupar com manutenção da composteira — esta é feita apenas uma vez ao final de cada ciclo.

Porém, esse sistema também tem algumas desvantagens e limitações. Como o material fecal cai lá em baixo, mesmo que você capriche ao jogar o material de cobertura, dificilmente “acertará em cheio”. Portanto, a cobertura é menos eficiente, comumente gerando algum problema com odores. Esse problema pode ser amenizado com boa ventilação do banheiro, boa ventilação da composteira (respiro adequado), e adição de mais material de cobertura. Ainda, a unidade toda deve ser bem vedada, tanto o assento como a tampa da câmara de compostagem e o respiro (com tela), para evitar o acesso de moscas, evitando sua proliferação na câmara.

Outra desvantagem diz respeito à falta de flexibilidade desse sistema. Digamos que você constrói um banheiro para uma casa de 3 pessoas. Porém, por algum motivo você recebe um morador extra, ou talvez você tenha uma vida social bem ativa, e o banheiro é usado além do esperado. Pode acontecer da câmara de compostagem se encher antes de ter dado o tempo necessário para a compostagem completa da outra unidade do banheiro, gerando portanto um problema logístico!

Uma limitação deste sistema é que geralmente não é possível fazer uma adaptação em um banheiro já existente. Às vezes é possível projetar e construir um banheiro seco vertical contíguo à casa, especialmente quando a topografia do terreno for favorável, já que o banheiro tem que ficar a uma altura no mínimo cerca de 1,5 m acima do nível do solo do lado externo à casa, para permitir espaço vertical para a construção da câmara de compostagem, sendo necessário também uma área de circulação do lado de fora para permitir a retirada periódica do composto. Porém, na prática a grande maioria das pessoas que utilizam este sistema optam por construir o banheiro como uma estrutura independente e externa à casa, o que pode representar um custo substancial, além de requerer um espaço considerável, podendo ainda ser considerado bastante inconveniente (imagine ter que sair da sua casa para ir ao banheiro num dia de chuva!).
Por fim, cabe ressaltar que há muitas pessoas que utilizam esse modelo de banheiro seco, e estão satisfeitas.

banheiro seco vertical modulo duplo

Banheiro seco horizontal

Já o banheiro seco horizontal, ou de composteira separada, é desconcertantemente simples: consiste basicamente de um balde plástico com tampa e capacidade para 15 a 25 litros, um assento de vaso sanitário comum e uma composteira que fica fora da casa. Para se usar o banheiro, basta abrir a tampa do balde, instalar o assento de privada e usar como se fosse uma privada comum. Após o uso, cobre-se com uma camada de material de cobertura. Antes que o balde se encha completamente, esse deve ser esvaziado: leve até a composteira, deposite lá o conteúdo do balde e cubra o material recém-adicionado com uma nova camada de material de cobertura. O balde deve ser limpo internamente a cada esvaziamento — você pode lavá-lo com água e uma escova comum de vaso sanitário, e jogar a água na composteira, mesmo. Alternativamente, você pode apenas limpar o interior do balde com o próprio material de cobertura: ainda ao lado da composteira, adicione uma certa quantidade de serragem dentro do balde e mexa com uma espátula de madeira (feita com uma ripa ou bambu) de uso exclusivo para esse fim. Jogue essa serragem dentro da composteira. Cubra o fundo do balde com uma camada de material de cobertura, e ele já estará pronto para ser levado novamente ao banheiro para uso. Ou seja, nem mesmo para limpar o balde é necessário usar qualquer água! Caso deseje, você pode sanitizar o interior do balde aplicando uma fina camada de cinzas, mas isso não é necessário.

banheiro seco horizontal esquema

Quando a composteira se enche, ela deve ser coberta com uma generosa camada de material de cobertura, ter a data marcada em local visível, e deixada intacta pelo período adequado para compostagem (mínimo de 6 meses, conforme já discutido), após o que ela pode ser esvaziada; então, o composto estará pronto para uso como adubo. Durante esse período, usa-se outra composteira. Deve-se ter um número suficiente de composteiras para sempre permitir o descanso por todo o período de compostagem — isso é vital.

A cobertura final de palha ou serragem deve ser relativamente grossa, pois isso ajuda no isolamento térmico do composto, facilitando que esse atinja temperaturas altas (composto termofílico).

A maioria das pessoas prefere construir um pequeno gabinete, que pode ser madeira reaproveitada (de pallets usados, por exemplo), e instalar o balde dentro deste gabinete no banheiro, com o assento de privada sendo fixado ao gabinete. Isso pode dar um aspecto mais “civilizado” do que simplesmente defecar no balde, mas certamente não é necessário.

humanure toilet horiz

Você não precisa esvaziar o balde assim que ele se enche. Pode ter alguns baldes a postos, para substituir conforme necessário, planejando para esvaziá-los uma vez por semana, por exemplo. Basta deixar os baldes cheios devidamente tampados, e não haverá problema algum — nem cheiro, nem moscas, nada.

O tamanho da composteira pode variar, mas um tamanho de 1 metro cúbico é geralmente adequado. Elas podem ser construídas de tábuas de reuso, como tábuas de construção ou de pallets. As composteiras devem ser bem feitas, para que resistam por todo o período de enchimento e compostagem (cerca de um ano, ao todo). Como geralmente usamos madeiras reaproveitadas, na maioria das vezes de pinus, que apodrecem facilmente, geralmente as tábuas não podem ser usadas mais do que uma ou duas vezes, tendo que ser substituídas. Se você usar madeiras mais resistentes ou tratadas, talvez possam ser usadas por vários anos.

As composteiras devem ser construídas fora da casa, mas não muito longe, para facilitar o manejo. Convém provê-las com uma cobertura, para evitar o ressecamento excessivo na estação seca, e encharcamento na estação chuvosa.

Você pode construir composteiras isoladas, ou um módulo duplo com compartimento para armazenar serragem no centro (veja ilustração abaixo). O telhado é provido de calhas e tanque para armazenamento de água de chuva, que pode ser usada na lavagem dos baldes. As composteiras são usadas alternadamente: enquanto você vai enchendo uma, a outra, já cheia, permanece intocada, repousando por todo o período necessário para a compostagem. Caso a composteira em uso se encha antes do período mínimo para abertura da outra, devem ser construídas composteiras adicionais.

composteira em modulo duplo

Ao contrário do banheiro seco vertical, o sistema horizontal é extremamente fácil de adaptar em sua casa — basta tirar a privada do banheiro e colocar um balde no lugar, e construir uma composteira no quintal, trazer alguns sacos de serragem da madeireira ou marcenaria mais próxima, e pronto, já pode começar a usar o seu banheiro seco!

Uma das coisas que fazem este sistema muito interessante e atrativo é o seu baixíssimo custo, já que pode ser feito inteiramente com materiais reaproveitados. Você não precisa e nem deve comprar um balde novo. Há diversos produtos que são comercializados em baldes de tamanho adequado (15 a 25 litros), como margarina para uso industrial, impermeabilizante para concreto, cloro para tratamento de água, graxa, etc. Em geral, são produtos de uso industrial ou para construção, então você vai ter que ir aos lugares certos para obtê-los, como construções em andamento, indústrias, grandes postos de serviços, etc. Muitas vezes, esses baldes podem ser encontrados em depósitos de sucatas e materiais recicláveis. Em minha cidade, a opção mais fácil são os baldes de margarina (15 kg), usados pelas padarias.

Esses baldes costumam ser de excelente qualidade, muito fortes e duráveis, e com tampas realmente herméticas, e em geral podem ser obtidos a custos muito baixos — com sorte, até de graça! O mesmo pode-se dizer dos demais materiais necessários ao uso deste modelo de banheiro seco: as madeiras para construir as composteiras podem ser obtidas a custo virtualmente zero, se você usar tábuas de construção descartadas, ou madeiras de pallets quebrados, e a serragem também, geralmente, você pode obter de graça (ou quase) em madeireiras e marcenarias.

 

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(O livro “Manual Humanure”, de Joe Jenkins, é a referência mais completa sobre este assunto, sendo geralmente considerado uma espécie de “bíblia do banheiro seco”.)

 

Referências:

* Germer, J. et al. Temperature and deactivation of microbial faecal indicators during small scale co-composting of faecal matter. Waste Management. 2010.

** Jensen, P. K. et al. Survival of Ascaris eggs and hygienic quality of human excreta in Vietnamese composting latrines. Environmental Health. 2009.

*** Kakimoto, T.; Funamizu, N. Factors affecting the degradation of amoxicillin in composting toilet. Chemosphere. 2007.

Bioconstrução — eficiência energética e design passivo para energia solar

Há todo um conjunto de estratégias de design que podem ser usadas para potencializar os efeitos positivos da irradiação solar e ao mesmo tempo minimizar eventuais efeitos negativos, levando naturalmente a um bom conforto térmico na casa, reduzindo ou eliminando a necessidade de gasto de energia para aquecimento ou refrigeração.

O item mais básico do design passivo para energia solar é o dimensionamento e disposição adequada de janelas favorecendo a iluminação e ventilação natural, pois não há nada pior que uma casa sem janelas, com lâmpadas acesas o dia todo! Isso se aplica praticamente a todas as casas, em qualquer parte do mundo.

Em climas frios, há diversas técnicas que podem ser usadas para captar e armazenar a energia do sol, aumentando a temperatura média no interior da casa em vários graus, sem qualquer gasto de energia. Por exemplo:

attached greenhouse
Estufa acoplada à casa

Estufa acoplada à casa, no lado do sol predominante do inverno (ou seja, o lado voltado para o norte no caso do hemisfério sul, e vice-versa). Uma estufa nada mais é do que um cômodo ou “casinha” fechada, feita inteiramente de vidro em uma armação metálica. Estufas funcionam assim: a radiação solar penetra nelas através do vidro e boa parte fica ali retida na forma de calor, elevando a temperatura interna. Por isso elas são tão usadas para cultivar vegetais em regiões frias! Ao se fazer uma estufa acoplada à casa, esse calor pode ser aproveitado para aquecer a casa, bastando para isso abrir a porta ou janelas que dão acesso à estufa. Janelas grandes ou mesmo paredes de vidro voltadas para o lado do sol predominante do inverno também ajudam a captar e reter dentro da casa a energia solar, pelo mesmo princípio.

Coletor-irradiador de energia solar. Uma estrutura de alta massa térmica e cor escura, por exemplo uma parede de pedra pintada de preto, um piso escuro, etc., posicionada próximo às janelas do lado ensolarado, recebendo o sol durante o dia, capta a radiação solar convertendo-a em calor, que é liberado lentamente para o ar ambiente, aumentando a temperatura local significativamente, mesmo várias horas noite a dentro.

earthship 1
Earthship

Na Earthship acima, o arquiteto Michael Reynolds fundiu os conceitos de estufa acoplada e coletor-irradiador térmico solar, para máximo efeito. Ele garante que é possível passar todo o inverno sem qualquer gasto de energia com outras formas de aquecimento, mesmo com a temperatura externa de vários graus abaixo de zero. Se os vidros forem móveis (p. ex. “de correr”), a mesma área pode se transformar em uma gostosa varanda no verão!

Isolamento é uma necessidade óbvia em climas frios, para evitar a fuga de calor da casa. Portas e janelas devem ser perfeitamente herméticas, e vidraças devem ser de vidro duplo, para minimizar a transferência de calor.

Plantar árvores caducifólias (que perdem as folhas no inverno) ao redor da casa, nas direções do sol predominante, também é uma técnica importante. No verão, essas árvores fornecem sombra, mantendo a casa fresca; e no inverno, perderão as folhas, permitindo a entrada do sol, que aquecerá a casa.

caducifólias

Climas quentes

Já em climas quentes, a preocupação é o inverso: evitar o acúmulo de calor. Para isso, são úteis as seguintes técnicas:

  • Construir com pé-direito alto garante ambientes internos mais frescos.
  • Usar telhado verde (que discutiremos em outro artigo).
  • Plantar árvores de boa sombra ao redor de toda a casa, evitando a incidência de sol nas paredes e no chão, ajuda a refrescar bastante o ambiente interno. Varandas amplas também ajudam, pelo mesmo motivo.
  • Pequenas janelas basculantes, posicionadas bem alto na parede, próximo ao teto, são úteis para deixar o ar quente sair (pois o ar quente é menos denso e, portanto, sobe).

janela basculante alta

Há certas regras gerais que são universais para o conforto térmico. Por exemplo, em relação a quando abrir ou fechar as janelas e portas, vale sempre a seguinte regra: se o ar externo estiver mais agradável que o interno, abra as janelas; agora, se o ar interno estiver melhor que o externo, feche as janelas. Isso vale tanto para o calor como para o frio.

Certos materiais e técnicas de construção também conferem naturalmente conforto térmico. É o caso de paredes grossas de barro, como nas técnicas do cob, hiperadobe e terra pilada, que discutiremos mais adiante. O barro, quando sêco, contem quantidade substancial de ar preso entre as partículas de areia e argila, fazendo com que seja um mau condutor de calor (ou em outras palavras, um bom isolante térmico). Além disso, as paredes grossas e pesadas têm uma massa térmica considerável. Em conjunto, esses fatores fazem com que as casas construídas com essas técnicas sejam frescas no verão e quentinhas no inverno, sendo ótimas para todos os climas, sejam tropicais, temperados, áridos, etc.

 

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Bioconstrução — a técnica do COB

cob 1

O cob é provavelmente a mais rústica, primitiva, simples e natural técnica de bioconstrução — daí sua beleza! É também uma técnica incrivelmente flexível, e ao mesmo tempo robusta e segura, desde que bem feita. A técnica do cob consiste essencialmente em se esculpir a sua casa, ou pelo menos suas paredes, com barro, no melhor estilo joão-de-barro!

Uma das vantagens do cob é sua extrema plasticidade, ou seja, a liberdade que ele oferece de construir em estilos e formatos variados. Você pode construir desde uma casa “normal”, quadradinha, retinha e lisinha que ninguém suspeitaria ser feita de barro (exceto talvez pela espessura das paredes), até habitações com os formatos mais alternativos e não convencionais (desde que respeitados os limites da física, claro).
Apesar de sua desconcertante simplicidade e primitividade, o cob é uma técnica extremamente segura e durável. Casas de cob podem durar muitos séculos, sem problema algum.

cob interior

Construindo com cob

O barro

Uma das coisas legais sobre as construções de terra é poder fazer a casa usando a terra do próprio local onde ela será construída. Devem ser usados solos areno-argilosos livres de matéria orgânica (ou seja, excluindo-se a camada de solo superficial). A proporção ideal de areia:argila é algo em torno de 2:1 (duas partes de areia para uma de argila). Porém, essa proporção é bastante flexível, e solos com teor de argila entre 15 e 50% podem ser usados sem problemas. Na prática, isso significa que a grande maioria dos solos areno-argilosos são adequados para construir com cob.

Deve-se ter o cuidado de obter o barro de forma que não cause impacto ambiental ou paisagístico, por exemplo por implicar em desmatamento, ou propiciar erosão, ou desfigurar a topografia ou a paisagem, etc. A fonte do barro também deve ser o mais próxima possível do local da construção, diminuindo assim os custos e impactos relativos ao transporte, já que a quantidade de material para qualquer construção é substancial. Uma opção inteligente é, ao escavar reservatórios de água, como lagoas, açudes e cisternas, utilizar a terra removida para a construção. Outra fonte extremamente inteligente de barro para construção são as bacias de infiltração de águas pluviais (aquelas que coletam o escorrimento superficial de estradas de terra). Com a inevitável erosão da estrada, essas bacias coletam, além da água, terra. Assim, para que continuem funcionando, essas bacias têm que ser periodicamente “limpas”, o que significa um suprimento de barro que pode perfeitamente ser utilizado para bioconstrução.

Preparo do barro

Deve-se preparar um local plano e limpo para misturar e amassar o barro, o mais próximo possível do local da construção. Você traz o barro para esse local, quebra os torrões (se houver) usando uma enxada, adiciona a palha e outros aditivos (se for o caso) e água, e vai “virando” esse barro com a enxada. Em seguida, deve-se “amassar” bem o barro com os pés — para muitos, esta é a parte mais divertida da construção com barro! Pode-se amassar em grupos, e às vezes se mistura esta tarefa com música e danças improvisadas, tornando-se uma verdadeira festa!

Misture e amasse o barro, ajustando o teor de água até ficar com uma consistência relativamente firme, porém plástica. Se estiver muito duro e esfarelando, é indicativo de falta de água; mas, se estiver muito mole, escorrendo, é sinal de excesso de água. Acertar no teor de umidade é muito importante, pois uma massa muito seca não dará boa aderência, e a parede ficará muito porosa e fraca. Por outro lado, excesso de umidade (consistência de lama) fará com que a parede, ao secar, rache excessivamente.

Aditivos

Construções perfeitamente boas podem ser feitas apenas com a terra, conforme descrito acima. Porém, embora não seja estritamente necessário, a maioria dos bioconstrutores do presente e do passado, em todas as épocas e regiões do mundo, têm incluído aditivos à massa de barro para melhorar suas características e a qualidade da construção. Os principais aditivos são a palha e estrume bovino fresco.

  • Palha. A adição de palha pode aumentar a resistência da construção e reduzir sua tendência a rachaduras. Para isso, pode-se ceivar, roçar ou mesmo arrancar capim, deixá-lo secar ao sol por alguns dias, e depois picá-lo em pedaços de 3 a 5 cm, usando para isso um facão afiado e um bloco de madeira (ou um triturado de capim, claro, se disponível). Adicione essa palha à massa de barro; você perceberá que a adição de palha deixa a massa mais seca, fazendo necessária também a adição de mais água para atingir a consistência ideal para construção. O ideal é usar capins de folhas finas, e podem ser usados restos de culturas como arroz e trigo. Evite capins de folhas largas ou talo muito grosso (capim-elefante, por exemplo). A quantidade a ser usada varia, mas como ponto de partida pode-se usar uma proporção de aproximadamente 1:10, em volume (uma parte de palha para dez de barro).
  • Estrume bovino fresco pode ser adicionado, a uma proporção de 2 a 5% da massa de barro, para aumentar sua resistência mecânica e à erosão. Estrume é um aditivo extremamente tradicional em construções de terra. Acredita-se que o muco e fibras vegetais contidas nas fezes sejam os responsáveis por melhorar as características do barro. Embora o estrume de vaca seja o mais comum, por ser normalmente o mais abundante, você pode também usar estrume de outros grandes herbívoros, o que estiver à sua disposição.

Construindo a parede

Tome porções da massa de barro com ambas as mãos e aplique com um golpe ágil sobre a base de pedra, formando uma camada de cerca de 10 cm de altura, e da largura que se pretende dar à parede, por todo o contorno da casa e também as paredes internas. Estruturas acessórias como sofás, prateleiras, lareiras, etc. também podem ser construídas de cob concomitantemente, em uma estrutura inteiriça com as paredes! Mas isso não é necessário, você também pode deixar para construir essas coisas depois que a casa estiver pronta.

Ao se aplicar cada “mãozada” de barro, deve-se massagear ligeiramente, dando tapas, pancadas e pressionando com os dedos para moldar e obter uma melhor fusão entre os bolos de barro. Terminada a primeira camada, você pode iniciar uma nova camada sobre ela. Você pode fazer até umas 2 ou 3 camadas em um dia. Então, é necessário esperar que o cob seque e endureça o suficiente antes de aplicar mais camadas — geralmente 2 a 3 dias, dependendo da temperatura e umidade, ocorrência de chuvas, etc. É bom proteger o topo das paredes de com com uma lona plástica ou fardos de palha, etc. ao final do dia de trabalho, em caso de chuvas. No início de um novo dia de trabalho, enquanto se prepara a masseira, deve-se molhar o topo da parede de cob algumas vezes, até que fique bem úmida para possibilitar melhor adesão com a nova camada de barro.

Os batentes de portas e janelas devem ser instalados preferencialmente conforme a construção das paredes prossegue. Instalações para fiações elétricas e tubulações de água também devem ser planejadas com antecedência e feitas concomitantemente à construção das paredes, para maior praticidade.

construindo com cob

A grossura da parede varia bastante, em função principalmente do peso a ser suportado, ou seja, a altura da construção, se terá um ou mais andares, peso do telhado, etc. Normalmente usa-se uma largura de no mínimo 25 cm para construções bem simples e baixas; 40 cm para uma casa térrea, e mais larga para construções de mais de um andar. Geralmente constroem-se paredes mais grossas na base, afinando progressivamente conforme a parede vai subindo, diminuindo cerca de 2 a 3 cm de grossura a cada metro de altura.

Vigas para o telhado repousam diretamente sobre o cob. Caso se julgue necessário, dependendo do tamanho e peso das estruturas do telhado, pode-se fazer as paredes mais grossas nos pontos de sustentação das vigas, formando uma estrutura de reforço (coluna de cob).

Acabamento

As paredes esculpidas à mão invariavelmente ficam com uma superfície bastante irregular e rugosa. Algumas pessoas podem gostar desse aspecto rústico, mas você pode deixá-las bem mais lisas e regulares desbastando-as com uma lâmina metálica, que pode ser um facão, por exemplo. Aí, ela estará pronta para receber o reboco e pintura.

Existe um princípio que diz que materiais semelhantes têm afinidade entre si. Por isso, não se deve nunca utilizar massa de cimento para rebocar construções de terra. Além de não aderir direito, as diferenças de rigidez e respirabilidade fazem com que rebocos de cimento rachem e descasquem das bioconstruções em pouco tempo. Por isso, deve-se sempre usar materiais naturais também para o acabamento.

O reboco natural pode ser feito com uma massa de barro muito semelhante à do cob em si, mas com ingredientes mais finos, peneirados. Inúmeras variações são possíveis, mas uma receita básica para reboco seria um barro com proporção areia fina:argila de cerca de 2:1, e estrume fresco de vaca peneirado numa proporção de 10 a 20% do total da massa. Além da função estética, o reboco reduz a poeira no interior da casa e protege as paredes externas da erosão. Variações na proporção de areia e argila, na granulometria da areia e aditivos como fibras vegetais e outras, assim como a técnica de aplicação com pincel, mãos, espátulas etc., podem ser usadas para dar texturas diferentes ao reboco.

Para pintura, pode-se utilizar a cal para pintura, pois adere muito bem às paredes de barro e oferece ótima proteção contra as intempéries. Aplique várias demãos, formando uma camada grossa de cal.

Outra ótima opção são as tintas de terra. Fazer tinta de terra é muito fácil: basta peneirar bem a terra e adicionar uma mistura de cola branca e água até dar uma consistência pastosa fina, e aplicar às paredes com brochas ou rolos, como qualquer outra tinta. Você pode usar praticamente qualquer tipo de terra, não importando muito o teor de areia e argila, desde que não seja areia pura. Existem terras de inúmeras cores diferentes: amarelas, vermelhas, pretas, brancas, cinzas… além é claro de todos os tons de marrom, o que te dá várias possibilidades na confecção da tinta. Você ainda pode adicionar pigmentos naturais, como urucum, ou corantes artificiais para atingir outras cores e tonalidades. A proporção de cola e água é bastante flexível, indo de 1:2 até 1:10, de acordo com o tipo de solo e a resistência que se quer dar à tinta.

O acabamento com reboco e tinta de terra descrito acima serve não apenas para cob, podendo ser usado igualmente para todas as outras técnicas de construção com terra.

 

Isto tudo e muito mais no livro “A Crise Ambiental e Civilizacional e a Alternativa da Permacultura”! Adquira já um exemplar impresso AQUI, ou se preferir, baixe grátis!

 

* O livro “The Cob Builders Handbook”, de Becky Bee, é leitura obrigatória para quem deseja se aprofundar nesta técnica de bioconstrução.

O que é PLANTAR ÁGUA, e por que devemos fazer isso?

Quando as pessoas procuram terrenos para comprar na zona rural, é muito comum partirem da noção que uma propriedade só terá valor ou utilidade se nela houver algum curso d’água, como rio, riacho, lago nascente. Porém, essa visão é errônea e na verdade um tanto absurda: são raros os locais no planeta onde haja uma grande abundância de nascentes e outros cursos d’água, em grande proximidade; assim sendo, insistir nessa ideia é o mesmo que assumir que praticamente toda a superfície terrestre é imprópria para a ocupação humana, ou para a produção de alimentos, etc.

Todos sabemos que água é essencial. O problema é que as pessoas só conseguem ver a água olhando para baixo, esquecendo-se completamente da fonte primordial de água: a chuva. Para ilustrar, tomemos o exemplo de um terreno com área de um hectare, em um local de índice pluviométrico mediano, de 800 mm/ano. Isso significa que chovem, por ano, OITO MILHÕES DE LITROS de água limpa, de boa qualidade sobre esse terreno. Em muitos casos, cerca de metade dessa água deixa o terreno na forma de escorrimento superficial, ou seja, é simplesmente perdida, sem cumprir qualquer função, quer para o homem, quer para a natureza (e ainda causa erosão, assoreamento, etc.).

Assim, fica claro que o ponto crucial na questão do abastecimento de água não é se há uma nascente ou rio no terreno ou não, e sim a captação e armazenamento de água de chuva. Na imensa maioria dos casos, a água da chuva seria plenamente suficiente para suprir todas as necessidades de uma propriedade rural, bastando apenas que esse recurso fosse eficientemente captado e armazenado, e utilizado de forma racional.

A aplicação dos princípios da permacultura ao assunto ‘água’ permite a criação de um conjunto de princípios específicos em relação ao seu manejo e uso:

  1. A chuva é a fonte primordial de água. Capte, armazene e utilize a água da chuva.
  2. Armazene a água o mais alto possível, faça-a percorrer o maior caminho possível na propriedade, desempenhando o maior número de funções benéficas.
  3. Use a água de forma consciente e econômica.
  4. Promova a penetração de água no solo e a restauração do ciclo das águas.
  5. Jamais polua qualquer corpo d’água.

Quando usamos a água de forma irracional e predatória, causamos a sua redução progressiva. Por isso, é essencial que utilizemos esse recurso de forma racional e consciente. Façamos a seguinte comparação: quando você usa as fontes “convencionais” de água, você invariavelmente está causando uma redução na água disponível! Por exemplo, ao bombear água de poço você causa o abaixamento do lençol freático, e tem que cavar cada vez mais fundo, e às vezes até seca o poço. O mesmo acontece com rios — muitos estão secando pelo mundo afora, por que as pessoas estão consumindo a água: pense não só em você, mas TODAS as pessoas tirando água do rio. No final, não tem mais água, só mangueiras! Isso é uma realidade.

Agora, quando captamos e utilizamos a água da chuva, estamos aumentando sua permanência no local — uma água que seria normalmente perdida, escorrida para fora da propriedade — e fazendo-a desempenhar funções produtivas, enquanto preservamos os outros recursos hídricos e os ecossistemas aquáticos. Ao reciclarmos a água, damos-lhe múltiplos usos, economizando-a. Por exemplo, a utilização de águas cinzas para irrigação e ferti-irrigação, o que se reverte em produção e fomento à vida.

Ao favorecermos a penetração da água no solo estamos garantindo o abastecimento do lençol freático e a permanência das nascentes. Isso pode ser conseguido, em primeiro lugar, através da PRESERVAÇÃO de florestas, mas também fazendo reflorestamentos e estabelecimento de agroflorestas, curvas de nível, etc. Isso tudo leva não apenas a uma preservação, mas de fato a um aumento da quantidade e qualidade da água no local. Por isso dizemos que, em permacultura, nós não apenas utilizamos a água — nós cultivamos a água.

 

“If you do only one thing, collect rainwater”
— Bill Mollison

Como construir uma lagoa artificial para água da chuva a baixo custo!

A principal forma de armazenamento superficial de água de chuva em propriedades rurais para usos diversos é na forma de lagoas artificiais. Elas são extremamente versáteis e incrivelmente úteis. Com elas, pode-se armazenar volumes muito expressivos de água. Elas podem servir a inúmeros propósitos, tais como abastecimento doméstico, irrigação, aquacultura, criação de microclimas, paisagismo, recreação, fomento à vida selvagem, etc.

Teoricamente, qualquer lagoa pode ser escavada à mão, com enxadões, pás e carrinho de mão, etc. Porém, trata-se de um trabalho árduo e demorado. A não ser que se trate de uma lagoa bem pequena, ou você tenha à sua disposição um bom número de pessoas dispostas e motivadas e não tenha pressa, o mais comum é escavar com maquinário pesado, como retroescavadeiras, pás carregadeiras ou tratores de esteira.

Lagoas de água de chuva devem ser rigorosamente impermeabilizadas, pois qualquer perda por penetração da água ou vazamentos pode significar uma lagoa vazia no meio da estação seca. A forma mais simples e garantida de impermeabilizar uma lagoa é com a instalação de uma lona plástica. Lonas plásticas são 100% impermeáveis, mas são fotodegradáveis, o que significa que, se ficarem expostas à radiação solar, deterioram-se e rompem-se em questão de poucos anos. Porém, se protegidas do sol, podem durar virtualmente para sempre. Por isso, a lona plástica deve receber uma cobertura permanente de terra.

Antes da instalação da lona, o interior da lagoa deve ser adequadamente preparado. As laterais devem ser feitas em “degraus”, com plataformas planas de no mínimo 20 cm de largura, e taludes com inclinação máxima de 45° e altura de cerca de 45 cm. Esse formato é importante para permitir que a terra permaneça sobre a lona, ao invés de escorrer toda para o fundo da lagoa na primeira chuva forte.

interior lagoa
O interior da lagoa deve ser bem compactado com soquetes ou mesmo com os pés. Quaisquer tocos ou pedras devem ser cuidadosamente removidos, e a superfície interna deve ficar bem lisa, para evitar danos ou ruptura na lona plástica.

Também, antes de se instalar a lona plástica, é necessário preparar o local onde será construído o canal de entrada de água. Este é uma depressão na lateral da lagoa em forma de canaleta, com dimensões e capacidade superiores às do canal de captação. Como o próprio nome já diz, é por ele que a água entrará na lagoa. O canal de entrada deve ser escavado cuidadosamente, mantendo-se o padrão de degraus, e suas bordas devem ser elevadas para ajudar a confinar o fluxo de entrada de água dentro do canal, mesmo em dias de chuva muito forte.

Preparado o interior da lagoa, procede-se à instalação da lona plástica. Há tipos de lona específicos para impermeabilização de lagoas, muitas vezes comercializados com o nome de “geomanta” que, embora apropriados para esse fim, infelizmente costumam ser substancialmente caros. Como alternativa, pode-se usar uma lona plástica de PEAD (polietileno de alta densidade) de 200 μm de espessura, daquelas normalmente usadas para cobrir silos. Essas lonas custam uma pequena fração do preço das geomantas e podem ser perfeitamente eficientes, mas são mais frágeis e, por isso, requerem cuidado redobrado para evitar rupturas, e proteção contra o sol. Além do custo, têm a vantagem de serem mais fáceis de se obter e instalar, e de representarem um consumo reduzido de plástico.

A lona deve cobrir todo o interior da lagoa, ultrapassando o limite das margens e o topo da barragem em cerca de 50 cm. Muitas vezes não é possível cobrir toda a lagoa com uma única lona plástica. Pode-se usar fita adesiva tipo “silver tape” para fazer emendas, bem como reparos. Deve-se cuidar para que a lona fique perfeitamente ajustada ao interior da lagoa.

A lona deve ser coberta com uma camada de terra de, no mínimo, 10 cm de espessura. Deve ser usado solo areno-argiloso, misturado com capim picado, que ajuda a estabilizar a camada de terra, evitando que escorra. Pode ser necessária a correção de acidez e fertilização da terra antes de usar para cobrir a lona, pelo menos sua camada mais superficial, para permitir o crescimento de plantas dentro e fora da água, estabilizando definitivamente a camada de terra que protege a lona. As plantas aquáticas serão também importantes para a criação e manutenção de um ecossistema aquático equilibrado e saudável, melhorando a qualidade da água, permitindo a produção de peixes, rãs, etc. Isso é vital para evitar a proliferação de mosquitos.

O canal de entrada de água na lagoa é um ponto crítico. Ele deve ser construído com pedras e argamassa de cimento (ou, alternativamente, manilhas, canaletas de concreto, ferrocimento, etc.), de forma que comporte e conduza de forma segura a água para dentro da lagoa, sem transbordar, evitando assim qualquer erosão dentro da lagoa, com exposição da lona plástica.

canal de entrada

O excesso de água deve deixar a lagoa por um canal de saída ou dreno. O canal de saída é uma parte crucial de todo armazenamento de água de chuva, e deve ser planejado, construído e mantido cuidadosamente. Quando armazenamos água da chuva, nós captamos escorrimento superficial de uma grande área. Em chuvas fortes, isso pode causar a concentração de grandes volumes de água, excedendo a capacidade de armazenamento de nosso sistema, o que significa que ele irá transbordar. Agora, nós nunca podemos deixar que essa água “decida” por onde ela vai correr, pois ela sempre decidirá correr pelo caminho mais curto, ou seja, pelas descidas mais íngremes, com imenso potencial de causar danos, especialmente na forma de erosão, além de danificar instalações, plantações, etc. Para evitar esse tipo de problemas, devemos conduzir a água excedente de forma suave através do terreno, até onde ela deve ir. Algumas pessoas pensam logo em usar tubos, mas na maioria dos casos a melhor forma de conduzir essa água é na superfície, através de curvas em desnível semelhantes às usadas para captação da água. O posicionamento e construção do canal de saída devem ser orientados com uso de um nível de mangueira, para garantir que o ponto de saída da água seja realmente o ponto mais baixo da margem da lagoa, estando no mínimo uns 50 cm mais baixo que a altura da barragem (ou mais, no caso de lagoas grandes). Isto é crucial para evitar que a água transborde por sobre a barragem, o que causaria erosão e danos à barragem, e possivelmente até sua ruptura, com graves consequências. Os canais de saída são feitos na forma de uma curva em desnível com caída de 1 a 2%, zigue-zagueando pelo terreno, conduzindo a água suavemente até a próxima lagoa do sistema. Por fim, devem conduzir a água até uma “lagoa seca”, não impermeabilizada, onde a água poderá penetrar, indo abastecer o lençol freático.

Conforme já citado, a captação é feita através de canais, na forma de curvas em desnível que direcionam a água de escorrimento superficial do solo para dentro do reservatório (lagoa). A construção dos canais é simples: começando do ponto de entrada de água na lagoa, você traça no terreno, usando um nível de cavalete e estacas, uma linha sobre o solo com uma inclinação de 1 a 2%, com caída para a lagoa. A linha formada pela união dos pontos (estacas) marcará o local onde você deve escavar o canal. Você pode ter 2 canais, formando os braços direito e esquerdo da sua captação, que trarão toda a água de escorrimento superficial da seção do morro acima dos canais, conduzindo-a à lagoa. Os canais podem ser escavados com trator ou à mão, com enxadões.

Muitas vezes, você terá em seu terreno uma grota, uma depressão linear no terreno escavada pela água da chuva onde se concentra o fluxo das enxurradas e, portanto, sempre que chove passa por ali um enorme volume de água. Isso representa claramente uma ótima oportunidade de captação de água. Porém, não se deve nunca tentar represar a água na grota em si. Isso porque o local onde se forma a grota é sempre a porção mais íngreme do terreno, devendo ser evitado, conforme já mencionado. Ao invés disso, você deve construir a lagoa num local de topografia mais amena, e apenas um fosso de captação na grota (ou seja, uma pequena escavação e uma parede reforçada com pedras, pneus, sacos de terra, concreto, etc.), conduzindo essa água através de uma curva em desnível até a lagoa conforme descrito acima.

Escave um pequeno fosso, talvez com 1,5 m de diâmetro por 1 m de profundidade, ao final do canal de captação, logo antes da entrada na lagoa. Esse fosso não deve ser impermeabilizado. Ele servirá para reter terra, areia, restos vegetais ou quaisquer materiais carregados com a água, evitando que entrem e se acumulem na lagoa. O fosso deve ser limpo periodicamente, com remoção dos materiais retidos.

fosso seco

Terminada a construção da lagoa, plante grama ou de preferência várias espécies herbáceas nativas do local na camada de terra que recobre a lona plástica — as raízes das plantas são a forma mais efetiva de fixar a terra no local, evitando que escorra com as chuvas. Plante também plantas aquáticas, como aguapés e taboas, etc., no interior da lagoa, uma vez que esteja cheia. Rãs e pererecas virão espontaneamente habitar a lagoa, mas você também pode introduzir peixes, pitus, etc.

Agora, um detalhe muito importante de segurança: você deve cercar bem a sua lagoa, com uma boa cerca de arame ou alambrado. Isso é vital para a segurança das pessoas, pois sempre há riscos de afogamento, e também para proteção da lagoa em si — você não vai querer um animal grande e pesado como uma vaca ou cavalo entrando na sua lagoa, e danificando a lona plástica com seus cascos! Mesmo que você não tenha esses animais, é sempre possível que alguém esqueça uma porteira aberta, ou os animais do seu vizinho atravessem a cerca e entrem no seu terreno — esse tipo de ocorrência é extremamente comum na zona rural. Por isso, cerque bem sua lagoa, e você viverá muito mais tranquilo.

Por fim, plante árvores em volta da lagoa, para fazer sombra na água, mantendo-a fresca e evitando evaporação excessiva, e dando um efeito paisagístico agradável. Em climas frios, plante árvores caducifólias no lado ensolarado, permitindo que o sol aqueça a água no inverno.

 

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— CORPOROCRACIA — Afinal, de quem é o poder?

Vive-se uma ilusão de democracia, pois aquela ideia que o povo escolhe seus representantes para cuidarem de seus interesses e do bem comum em nada corresponde à realidade. Temos instalada, de fato, uma espécie de “ditadura das corporações”, ou corporocracia, já que o poder político emana das corporações, e não do povo — esse é mera massa de manobra.

A classe política em geral não passa de um grande bordel onde os políticos são as prostitutas dos grandes empresários. Os donos da grana manipulam políticos basicamente de duas formas: comprando-os com propinas, e financiando suas campanhas políticas, possibilitando que se elejam e permaneçam em seus cargos. As raras exceções, que não se curvam ao poder econômico, não conseguem fazer diferença, pois em geral não se elegem, e mesmo quando conseguem se eleger, não conseguem fazer nada, pois permanecem amarradas, por serem minoria.

Na corporocracia, políticas públicas e leis são feitas visando acima de tudo o lucro das corporações detentoras do poder, enquanto se mantém o discurso de “para o bem da nação”, “em prol da população”, etc. Assim, obras de infraestrutura como estradas, portos e usinas hidrelétricas são feitas para dar lucro a empreiteiras e construtoras; cidades são planejadas de modo a fazer do carro uma necessidade, gerando lucro para montadoras de veículos e indústria petrolífera, enquanto ferrovias são desmanteladas, pelos mesmos motivos; subsídios são dados ao agronegócio para aumentar os lucros das empresas com a venda de agrotóxicos, por exemplo, em detrimento da saúde do povo e do meio ambiente. Grandes indústrias de armamentos e petrolíferas, através de seus “fantoches-políticos-presidentes-de-países-de-primeiro-mundo”, criam guerras a todo momento, onde morrem milhares de pessoas, apenas para gerar vultuosos lucros com vendas de armas e munições, facilitar o domínio sobre recursos petrolíferos das regiões atacadas, expandir mercados para seus negócios, etc. Esses grupos poderosos valem-se da mídia para fazer campanhas permanentes de terrorismo psicológico, fomentando a xenofobia, preconceitos raciais e religiosos, e empregam rotineiramente a estratégia de forjar atentados para “justificar” e ganhar apoio da população para tais guerras.

Um elemento-chave na manutenção desse status quo é a desinformação, ou seja, a utilização das técnicas de comunicação e informação de forma enganosa, para dar uma falsa imagem da realidade, mediante a supressão ou ocultação de informações, minimização da sua importância ou modificação do seu sentido, com o objetivo de influenciar a opinião pública de maneira a proteger interesses privados ocultos.

corporocracia

FORMIGAS CORTADEIRAS — como proteger suas mudas

Quando você for fazer uma agrofloresta, você terá que fazer algo a respeito das formigas cortadeiras — saúvas e quenquéns. Acredito que isso vale para qualquer parte do Brasil, e possivelmente qualquer parte da América tropical, exceto talvez em grandes altitudes.

As formigas cortadeiras formam colônias imensas, com milhões de indivíduos. Seus ninhos são gigantescos, com até 200 m2 de área, e atingindo profundidades de até 8 metros. Elas têm um apetite insaciável por plantas. Na verdade, elas não comem as plantas, e sim levam para a colônia, onde usam essa matéria vegetal para cultivar um fungo específico, do qual se alimentam. Quando saem para forragear, saem aos milhares. Por onde passam, formam caminhos que são verdadeiras estradas de formigas! Elas escolhem uma planta, e cobrem essa planta de formigas enormes e vorazes. Vão cortando e carregando os pedaços das folhas, e só param depois de desfolhar completamente a pobre vítima. Você chega, e encontra só o talinho, todo roído. Seu efeito sobre hortaliças e mudas de árvores é simplesmente devastador. Em um viveiro, podem destruir dezenas de mudas da noite para o dia.

Se você fizer uma pesquisa, encontrará várias propostas de técnicas para o controle natural das formigas cortadeiras. Porém, ao pô-las em prática, provavelmente chegará à mesma conclusão que eu — que todas deixam muito a deseja, em termos de eficiência. Por isso, ao invés de tentar combater as formigas, o melhor é proteger suas mudas e árvores jovens do ataque através do uso de barreiras físicas que impeçam as formigas de atingirem as folhas.

Uma técnica bastante simples, barata e efetiva para proteger suas mudas é a do cone protetor, também chamado sainha anti-formiga ou técnica do “chapéu chinês”. Trata-se de um cone que pode ser feito recortando-se caixinhas de leite longa vida ou garrafas plásticas (recomendo as caixinhas longa vida) e grampeado ao redor do caule da muda; na parte inferior, aplica-se vaselina sólida, que é atóxica e atua como um repelente efetivo contra as formigas. Devido ao formato e posição, o repelente fica protegido da chuva, garantindo sua permanência e eficácia por mais tempo. Porém, é necessária atenção, com vistorias regulares para verificar a necessidade de reaplicação do repelente (a cada 2 meses, no máximo), ou substituição do cone devido ao crescimento da planta. É necessário também que se mantenha uma boa camada de cobertura vegetal morta sobre o solo ao redor da planta, pois caso contrário as gotas de chuva, ao atingirem o solo, respingam na parte inferior do cone, retirando o repelente ou impregnando-o com terra, fazendo com que perca a eficácia.

sainha