QUESTÕES FREQUENTES EM RELAÇÃO AO BANHEIRO SECO

Pode-se dizer que o banheiro seco de compostagem é o sistema de saneamento mais ecológico e sustentável que existe, sendo por isso mesmo o preferido na permacultura. Nesse sistema, os excrementos (fezes e urina) são depositados em um local devidamente contido, sem contaminar o meio ambiente, e cobertos com uma variedade de materiais naturais, chamados “materiais de cobertura”, formando camadas. Essa mistura é então mantida intocada por períodos que podem ser de 6 meses em regiões de clima tropical, a 1 ano em regiões de clima temperado, chegando até a 2 anos nos climas muito frios. Nesse período, que é crítico, ocorre o fenômeno da compostagem, em que microrganismos naturalmente presentes nesses materiais se proliferam, digerindo essa matéria orgânica e transformando-a em húmus, um fertilizante agrícola orgânico riquíssimo em nutrientes do solo.

O banheiro seco de compostagem traz enormes vantagens:

  • Não utiliza água.
  • Não gera esgotos ou qualquer outro tipo de poluição.
  • Resulta em fertilizante de alta qualidade, permitindo a devolução dos nutrientes ao solo para a produção de mais alimentos, recuperação ambiental, etc. Ou seja, não há desperdício de nutrientes, e sim sua reciclagem completa.

Embora desconcertantemente simples, essa tecnologia é muito recente — a compostagem só foi desenvolvida a partir dos anos 1940, com o surgimento do movimento de agricultura orgânica, e a compostagem de excrementos humanos somente a partir da década de 1970, sendo que o banheiro seco de compostagem só começou a se popularizar com a publicação dos primeiros livros sobre o assunto nos anos 90 — meros 20 anos atrás! E ainda hoje o sistema é totalmente novo para muitas pessoas, então é de se esperar que haja muitas dúvidas a esse respeito.

Abaixo, listamos algumas das perguntas mais frequentes associadas ao banheiro seco de compostagem.

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O que fazer com o papel higiênico?

O papel higiênico deve ir para a composteira. Papel higiênico é constituído de celulose, que nada mais é que matéria vegetal. Ele se decompõe de forma assustadoramente rápida, contribuindo para o teor de matéria orgânica do seu composto. Ainda presta uma contribuição modesta na absorção de umidade e aeração da pilha de composto. Portanto, papel higiênico deve ser adicionado junto com as fezes, no banheiro seco. Pode jogar sem medo, não vai entupir nada!

Urina junto ou separado?

Este é um assunto que divide opiniões, mas a verdade é que as duas opções existem e são válidas, cada uma com suas vantagens e desvantagens.

As principais vantagens de adicionar a urina juntamente com as fezes são a praticidade (você usará o banheiro seco da mesma forma que usa a privada de descarga convencional, ou seja, tanto para defecar como para urinar), o fato de ela ajudar a manter a umidade da pilha de composto, além de adicionar importantes nutrientes, especialmente o nitrogênio (nutriente do solo mais abundante na urina), gerando portanto um composto final mais rico em seu valor como fertilizante. Outra vantagem é o fato que a ureia presente na urina se converte em amônia, contribuindo para a destruição de patógenos durante a compostagem.

Porém, adicionar toda a urina junto com as fezes no banheiro seco traz também importantes desvantagens. Uma delas diz respeito ao volume: a urina é produzida diariamente em um volume muito maior (10 vezes maior, em média) que o volume de fezes produzido no mesmo período. Por isso, adicionar toda a urina juntamente com as fezes faz com que os baldes (no caso do sistema horizontal) e as composteiras se encham muito mais rapidamente, o que se reflete em uma carga de trabalho muito maior com manutenção do seu sistema, ou seja, você terá que esvaziar os baldes, e manejar composteiras com mais frequência, o que lhe tomará mais tempo de sua vida. Além disso, mais volume significa mais composteiras, ou composteiras maiores, que consequentemente ocuparão mais espaço. Você também precisará coletar material de cobertura com mais frequência, pois será usado em maior quantidade, especialmente para absorver todo aquele excesso de umidade representado pela urina.

Outra grande desvantagem desse sistema (toda a urina junto com as fezes na composteira) diz respeito à perda de nutrientes, especialmente o nitrogênio. Conforme já mencionado, o nitrogênio está presenta na urina predominantemente na forma de ureia; porém, durante a compostagem essa uréia se converte em amônia, a qual se perde por volatilização — uma perda que pode ser superior a 90% desse que é um dos mais vitais nutrientes para as plantas.

A abordagem alternativa é separar a urina em um recipiente à parte. Com isso, reduz-se enormemente o volume a ser compostado, reduzindo portanto o trabalho de manutenção do sistema, a necessidade de material de cobertura e o espaço ocupado pelas composteiras.

Deve-se ressaltar que quem precisa ser compostado são as fezes, já que têm um grande potencial de transmitir doenças. Em contraste, a urina é, em condições normais, praticamente estéril (na verdade, hoje sabe-se que a urina e o sistema urinário não são estéreis, e sim contêm uma microbiota específica que pode desempenhar papéis importantes na manutenção da saúde).

A urina é mais rica em nutrientes do solo que as fezes: das nossas excreções diárias, 90% do nitrogênio, 50 a 65% do fósforo e 50 a 80% do potássio estão contidos na urina. A fração sólida da urina é composta em média de 16% de N, 3,7% de P e 3,7% de K. Essa informação torna óbvio seu potencial como fertilizante. (Para maiores informações sobre o uso da urina como fertilizante, por favor leia este ARTIGO dedicado ao assunto.

Agora, aqui temos que deixar uma coisa bem clara. Muitas pessoas, quando se fala em separar a urina, ficam paranoicas por causa daquele xixizinho que normalmente sai na hora do “número dois”. Mas isso é besteira! Não é para se preocupar com isso. Urina separada não significa que qualquer quantidade de urina será prejudicial ao processo de compostagem; significa apenas que não é para usar aquele banheiro ou balde para fazer xixi. Então, aquele xixizinho eventual, não precisa se preocupar, pode fazer sem medo! Na verdade, uma certa quantidade de urina é sempre benéfica à compostagem de material do banheiro seco, mesmo quando se opta por um sistema de urina separada, pois, como já discutimos, ela auxilia na manutenção da umidade na composteira e na destruição de eventuais patógenos.

Virar ou não virar?

Existe um costume bastante arraigado entre as pessoas que praticam a compostagem, especialmente agricultores orgânicos, de virar (ou seja, remisturar) o composto periodicamente, durante o período da compostagem. Essa prática traria as seguintes vantagens: aerar a massa sendo compostada, favorecendo a decomposição aeróbica; fragmentação e homogeneização do composto, e também a redistribuição da umidade, permitindo uma decomposição mais completa e rápida, rendendo ainda um produto final com melhor aspecto.

Porém, embora tudo isso seja verdade, a prática tem comprovado que a viragem do composto não é necessária — talvez o processo leve um pouco mais de tempo, e você tenha um produto final menos homogêneo, mas ainda assim terá o seu composto, bom e seguro.

O processo de viragem traz duas desvantagens. A primeira e mais óbvia é o trabalho que dá virar o composto, especialmente se for um volume grande. Outro problema diz respeito a um risco à saúde: durante o processo de decomposição, há uma intensa proliferação de fungos no composto, e a viragem põe em suspensão no ar uma grande quantidade de esporos, o que pode representar um risco de alergias e mesmo infecções respiratórias.

Considerando tudo isso, e ainda o risco de contaminação ambiental com fezes (ou seja, material fecal antes da completa degradação), conclui-se que não se deve virar o composto contendo material do banheiro seco. Deixe-o ali, intocado por todo o período de compostagem recomendado, e você terá o seu composto. Vale ressaltar que os trabalhos científicos que comprovaram a eficácia da compostagem na eliminação de patógenos foram realizados sem viragem do composto, o que confirma que ela é desnecessária.

Não vai feder?

A resposta curta para essa pergunta é: não. Um banheiro seco adequadamente manejado não deve cheirar mal, tampouco a composteira deve ter qualquer cheiro desagradável. Agora, há apenas dois breves momentos em que você inevitavelmente sentirá maus odores. Um deles, obviamente, na hora de usar o banheiro, especificamente no caso da defecação. Não apenas porque isso fede em qualquer banheiro, mas há também outro pequeno fator: em privadas convencionais, as fezes, uma vez liberadas, são imediatamente submersas em água, o que ajuda a minimizar a liberação de odores. No banheiro seco, por outro lado, as fezes cairão… no seco. Portanto, até que você termine o serviço e cubra com o material de cobertura, haverá uma liberação de odores fecais superior ao que ocorreria em um banheiro convencional. Mas, na verdade, a diferença não é muito grande.

O outro momento em que haverá liberação de odores é na hora de esvaziar o balde na composteira, no caso do banheiro seco horizontal. Esse momento durará cerca de cinco minutos, entre você esvaziar o balde, limpá-lo e adicionar material de cobertura à pilha de composto. Cinco minutos, uma vez por semana — não é pedir muito, é? Certamente um pequeno sacrifício que vale a pena, considerando os enormes benefícios oferecidos pelo banheiro seco. Se, ainda assim, você se deixar desencorajar por isso, ainda tem a opção do banheiro seco vertical.

Exceto nos momentos acima citados, um banheiro seco e uma composteira bem manejada não devem jamais emitir qualquer odor. O único motivo para maus odores é aplicação insuficiente ou inadequada de material de cobertura. Alguns materiais de cobertura são menos eficientes em bloquear odores; por exemplo, serragem muito grossa, ou palha. Prefira serragem média, ou uma mistura de serragem de diferentes granulometrias, para melhores resultados. Palha, folhas mortas e outros restos vegetais devem ser, preferencialmente, triturados para uso como material de cobertura. Cinzas de fogão e forno a lenha, churrasqueiras, fogueiras, etc., que usualmente contêm algum resto de carvão, também podem ser adicionadas como material de cobertura e são úteis na eliminação de odores.

Uso de aditivos

Muitos manuais de compostagem citam ou recomendam a aplicação de calcário agrícola às pilhas de composto, para neutralizar acidez, desinfetar o composto, fornecer nutrientes (cálcio e magnésio), etc. O mesmo pode-se dizer das cinzas de madeira, que têm constituição semelhante e os mesmos efeitos.

Você pode aplicar cinzas ou calcário em pequenas quantidades no composto, seja no balde, misturado ao material de cobertura, ou sobre a pilha de composto na composteira, mas isso não é necessário. A adição de grandes quantidades não é recomendada, pois interferirá negativamente na degradação microbiana da matéria orgânica e desbalanceará demasiadamente a composição química e de nutrientes do composto.

Conforme já citado, a adição de cinzas de fogão a lenha ao composto pode ajudar a bloquear odores (embora geralmente não seja necessário).

Problemas com pragas

Esta é uma preocupação que atinge muitas pessoas interessadas em começar a usar um banheiro seco, ou fazer compostagem em geral: “não vai atrair bichos? moscas? ratos? baratas?”

Trata-se de uma questão pertinente, já que você terá ali concentrada uma grande quantidade e variedade de materiais orgânicos que são sabidamente atrativos a essas pragas. Porém, o fato é que, assim como em relação aos odores, na prática nada disso deve constituir problema, devido à “magia” do material de cobertura. Basta você aplicar material de cobertura adequado, em quantidades adequadas, e estará livre de odores e pragas.

É conveniente ressaltarmos uma coisa: nem só de microrganismos é feita uma compostagem — macrorganismos, sejam eles fungos, insetos, larvas, vermes, anelídeos, etc., também são parte importante da compostagem. Todos sabemos que as minhocas são comuns e benéficas em qualquer processo de compostagem, não é? Muitas vezes, são adicionadas intencionalmente (vermicompostagem), embora isso não seja necessário. Minhocas nativas também costumam colonizar pilhas de composto.

Outros animais que costumam aparecer no composto são besouros (depositam seus ovos na matéria orgânica, onde se desenvolvem em larvas que podem ser até bem grandes!), e larvas de moscas.

Aqui, devemos fazer uma distinção. Existem inúmeras espécies de moscas, e nem todas elas são pragas. Claro que ninguém quer moscas domésticas ou varejeiras crescendo em sua composteira. Caso isso ocorra, você pode adicionar alguma quantidade de cinzas, fazendo uma camada sobre a composteira, pois isso inibe essas larvas.

Por outro lado, é comum aparecerem em composteiras larvas da mosca soldado negra (Hermetia illucens). Essas moscas não são pragas, e na verdade são bastante benéficas. Para maiores informações sobre a mosca soldado negra, por favor leia este outro ARTIGO.

É realmente seguro?

A compostagem de excrementos humanos e seu uso como fertilizante agrícola, embora desconhecidas de muitas pessoas, são práticas estabelecidas e consolidadas mundialmente, e sua segurança e eficácia têm sido comprovadas por inúmeros trabalhos científicos. Essas práticas são particularmente disseminadas em países asiáticos, sendo inclusive encorajadas por governos. Um caso exemplar é o Vietnã, onde mais de 90% dos agricultores usam banheiro seco de compostagem e empregam esses nutrientes rotineiramente em suas lavouras, orientados por normas técnicas do governo daquele país, as quais são devidamente embasadas em pesquisas científicas.*

Claro que essa segurança depende do cumprimento das recomendações descritas acima, respeitando sobretudo o tempo de compostagem. Também é necessário ressaltar que nada substitui as boas práticas de higiene alimentar, especialmente a prática de lavar bem as frutas e verduras, enfim alimentos consumidos crus, antes de comê-los.

Pode-se compostar também fezes de cães e gatos?

Esta é uma dúvida que muitos compostadores têm e, por falta de conhecimento, muitas pessoas acabam incluindo excrementos de animais de estimação em uma lista de itens proibidos da compostagem.

É fato que, assim como as fezes humanas, fezes de cães e gatos também têm o potencial de nos transmitir doenças (zoonoses), especificamente a larva migrans visceral, causada pelo Toxocara canis, e a toxoplasmose, causada pelo Toxoplasma gondii — o primeiro, um verme nematoide que parasita o intestino de cães, e o segundo, um protozoário coccídeo que tem como hospedeiro definitivo os gatos. Porém, já foi demonstrado cientificamente que o processo de compostagem é eficaz na eliminação de ovos e oocistos de vermes e protozoários parasitas.** Portanto, para efeitos de compostagem, fezes de cães e gatos podem e devem ser compostadas, da mesma forma e com o mesmo rigor que fezes humanas, podendo o composto resultante ser usado como fertilizante, igualmente.

 

Constipação de fundo moral:

“Quando percebi que estava literalmente cagando em água limpa, tratada, potável, fiquei constipado por anos. Felizmente, conheci a tecnologia do banheiro seco, e agora meus intestinos funcionam regularmente.”

— Brad Lancaster, autor de “Rainwater Harvesting for Drylands and Beyond”

 

Este post é uma extensão de um artigo anterior dedicado ao assunto banheiro seco.

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Referências:

* Jensen, P. K. et al. Hygiene versus fertiliser: the use of human excreta in agriculture – a Vietnamese example. International Journal of Hygiene and Environmental Health. 2008.
** Amorós, I. et al. Prevalence of Cryptosporidium oocysts and Giardia cysts in raw and treated sewage sludges. Environmental Technology. 2016.

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