Saneamento ecológico — Banheiro seco de compostagem

Pode-se dizer que o banheiro seco é o sistema de saneamento mais ecológico e sustentável que existe, sendo por isso mesmo o preferido na permacultura. Nesse sistema, os excrementos (fezes e urina) são depositados em um local devidamente contido, sem contaminar o meio ambiente, e cobertos com uma variedade de materiais naturais, chamados “materiais de cobertura”, formando camadas. Essa mistura é então mantida intocada por períodos que podem ser de 6 meses em regiões de clima tropical, a 1 ano em regiões de clima temperado, chegando até a 2 anos nos climas muito frios. Nesse período, que é crítico, ocorre o fenômeno da compostagem, em que microrganismos naturalmente presentes nesses materiais se proliferam, digerindo essa matéria orgânica e transformando-a em húmus, um fertilizante agrícola orgânico riquíssimo em nutrientes do solo.

Durante o processo de compostagem, a intensa competição microbiana assegura a destruição total de quaisquer patógenos eventualmente presentes nos excrementos, garantindo a segurança do uso desse húmus na adubação do solo para a produção de alimentos, sem gerar riscos à saúde humana. A elevação da temperatura no processo de compostagem termofílica* e a presença de amônia, decorrente da degradação da ureia**, também contribuem para a destruição de eventuais patógenos. Além de microrganismos patogênicos, também resíduos de produtos químicos e farmacêuticos são degradados pelas condições biológicas e químicas que ocorrem no processo de compostagem***.

O banheiro seco de compostagem traz enormes vantagens:

  • Não utiliza água. Pense só, utilizar um banheiro por toda a sua vida sem jamais utilizar um litro de água sequer!
  • Não gera esgotos ou qualquer outro tipo de poluição.
  • Resulta em fertilizante de alta qualidade, permitindo a devolução dos nutrientes ao solo para a produção de mais alimentos, recuperação ambiental, etc. Ou seja, não há desperdício de nutrientes, e sim sua reciclagem completa.

Tipos de banheiro seco

Existem basicamente dois tipos principais de banheiro seco: o tipo vertical e o horizontal. Se você pesquisar, encontrará uma infinidade de variações, e inclusive modelos comerciais disponíveis em muitos países, sendo que muitos são até bem caros, às vezes dependem de energia elétrica para funcionar, etc. mas que na verdade não oferecem qualquer vantagem efetiva sobre os modelos simples do tipo “faça você mesmo”. Por esse motivo, focaremos nossa discussão sobre banheiro seco nos modelos mais básicos, que também são os mais populares.

Banheiro seco vertical

O banheiro seco vertical, ou de composteira acoplada, consiste de uma estrutura onde o banheiro propriamente dito é construído diretamente acima de uma câmara de compostagem (composteira), que é bem vedada. Não se usa uma bacia sanitária comum (daquelas de descarga) — ao invés disso, o vaso sanitário consiste basicamente de uma caixa ou bancada que dê altura adequada para que o usuário possa sentar-se, com uma abertura guarnecida de assento e tampa, que podem ser aproveitados de privadas convencionais. Alternativamente, pode-se fazer a abertura no assoalho do banheiro, caso queira-se uma privada daquelas que se usa agachado (opção tradicional e bastante popular na Ásia, e que muitos afirmam ser mais natural e saudável).

A câmara de compostagem deve ter um tubo para exaustão de gases gerados no processo da compostagem, e uma abertura independente, com porta, para esvaziamento periódico.

Ao usar o banheiro, os dejetos caem dentro da composteira. Após cada uso, ao invés de se “dar a descarga”, lança-se uma certa quantidade de material de cobertura dentro do vaso sanitário, suficiente para cobrir os dejetos. E pronto! o banheiro está pronto para uso novamente.

Por material de cobertura entende-se uma variedade de materiais naturais, como serragem, palha de arroz, folhas mortas de árvores, capim, aparas de grama e outros restos vegetais (e.g. galhos e restos de podas) triturados, etc. Eventualmente outros materiais podem ser adicionados, como cinzas e terra, desde que não constituam uma porção principal do material de cobertura. Outros materiais orgânicos, como restos de cozinha, também podem ser adicionados.

A principal e mais óbvia função do material de cobertura é bloquear odores provenientes dos dejetos e restos orgânicos durante a compostagem. Outras funções incluem: absorver o excesso de umidade do composto, manter a aeração proporcionando a decomposição aeróbica e termofílica da matéria orgânica, proporcionar um substrato poroso ideal para a atividade microbiana, prover nutrientes ao composto pela decomposição do material de cobertura, etc.

Quando a câmara de compostagem se enche, esse banheiro deve ser interditado por todo o período de compostagem (6 meses a um ano, dependendo do clima local). Nesse período, deve-se usar outro banheiro. Por isso, geralmente banheiros secos verticais são construídos em módulos duplos: dois banheiros idênticos, lado a lado, com suas respectivas câmaras de compostagem, que são usadas alternadamente: seis meses uma, seis meses a outra.

Ao final do período de compostagem, abre-se a câmara por uma porta lateral ou traseira (acesso externo) para remoção do composto, que estará pronto para uso como adubo. O tamanho da câmara de compostagem varia conforme a intensidade de uso, mas em geral tem em torno de 1 a 2 metros cúbicos. Devido ao uso alternado, deve-se necessariamente construir no mínimo dois banheiros (para uso individual ou uma família pequena). Deve-se construir um número suficiente de unidades para sempre permitir o descanso por todo o período de compostagem.

A vantagem deste modelo de banheiro seco é sua praticidade de uso, já que é só usar e usar, por seis meses, sem ter que se preocupar com manutenção da composteira — esta é feita apenas uma vez ao final de cada ciclo.

Porém, esse sistema também tem algumas desvantagens e limitações. Como o material fecal cai lá em baixo, mesmo que você capriche ao jogar o material de cobertura, dificilmente “acertará em cheio”. Portanto, a cobertura é menos eficiente, comumente gerando algum problema com odores. Esse problema pode ser amenizado com boa ventilação do banheiro, boa ventilação da composteira (respiro adequado), e adição de mais material de cobertura. Ainda, a unidade toda deve ser bem vedada, tanto o assento como a tampa da câmara de compostagem e o respiro (com tela), para evitar o acesso de moscas, evitando sua proliferação na câmara.

Outra desvantagem diz respeito à falta de flexibilidade desse sistema. Digamos que você constrói um banheiro para uma casa de 3 pessoas. Porém, por algum motivo você recebe um morador extra, ou talvez você tenha uma vida social bem ativa, e o banheiro é usado além do esperado. Pode acontecer da câmara de compostagem se encher antes de ter dado o tempo necessário para a compostagem completa da outra unidade do banheiro, gerando portanto um problema logístico!

Uma limitação deste sistema é que geralmente não é possível fazer uma adaptação em um banheiro já existente. Às vezes é possível projetar e construir um banheiro seco vertical contíguo à casa, especialmente quando a topografia do terreno for favorável, já que o banheiro tem que ficar a uma altura no mínimo cerca de 1,5 m acima do nível do solo do lado externo à casa, para permitir espaço vertical para a construção da câmara de compostagem, sendo necessário também uma área de circulação do lado de fora para permitir a retirada periódica do composto. Porém, na prática a grande maioria das pessoas que utilizam este sistema optam por construir o banheiro como uma estrutura independente e externa à casa, o que pode representar um custo substancial, além de requerer um espaço considerável, podendo ainda ser considerado bastante inconveniente (imagine ter que sair da sua casa para ir ao banheiro num dia de chuva!).
Por fim, cabe ressaltar que há muitas pessoas que utilizam esse modelo de banheiro seco, e estão satisfeitas.

banheiro seco vertical modulo duplo

Banheiro seco horizontal

Já o banheiro seco horizontal, ou de composteira separada, é desconcertantemente simples: consiste basicamente de um balde plástico com tampa e capacidade para 15 a 25 litros, um assento de vaso sanitário comum e uma composteira que fica fora da casa. Para se usar o banheiro, basta abrir a tampa do balde, instalar o assento de privada e usar como se fosse uma privada comum. Após o uso, cobre-se com uma camada de material de cobertura. Antes que o balde se encha completamente, esse deve ser esvaziado: leve até a composteira, deposite lá o conteúdo do balde e cubra o material recém-adicionado com uma nova camada de material de cobertura. O balde deve ser limpo internamente a cada esvaziamento — você pode lavá-lo com água e uma escova comum de vaso sanitário, e jogar a água na composteira, mesmo. Alternativamente, você pode apenas limpar o interior do balde com o próprio material de cobertura: ainda ao lado da composteira, adicione uma certa quantidade de serragem dentro do balde e mexa com uma espátula de madeira (feita com uma ripa ou bambu) de uso exclusivo para esse fim. Jogue essa serragem dentro da composteira. Cubra o fundo do balde com uma camada de material de cobertura, e ele já estará pronto para ser levado novamente ao banheiro para uso. Ou seja, nem mesmo para limpar o balde é necessário usar qualquer água! Caso deseje, você pode sanitizar o interior do balde aplicando uma fina camada de cinzas, mas isso não é necessário.

banheiro seco horizontal esquema

Quando a composteira se enche, ela deve ser coberta com uma generosa camada de material de cobertura, ter a data marcada em local visível, e deixada intacta pelo período adequado para compostagem (mínimo de 6 meses, conforme já discutido), após o que ela pode ser esvaziada; então, o composto estará pronto para uso como adubo. Durante esse período, usa-se outra composteira. Deve-se ter um número suficiente de composteiras para sempre permitir o descanso por todo o período de compostagem — isso é vital.

A cobertura final de palha ou serragem deve ser relativamente grossa, pois isso ajuda no isolamento térmico do composto, facilitando que esse atinja temperaturas altas (composto termofílico).

A maioria das pessoas prefere construir um pequeno gabinete, que pode ser madeira reaproveitada (de pallets usados, por exemplo), e instalar o balde dentro deste gabinete no banheiro, com o assento de privada sendo fixado ao gabinete. Isso pode dar um aspecto mais “civilizado” do que simplesmente defecar no balde, mas certamente não é necessário.

humanure toilet horiz

Você não precisa esvaziar o balde assim que ele se enche. Pode ter alguns baldes a postos, para substituir conforme necessário, planejando para esvaziá-los uma vez por semana, por exemplo. Basta deixar os baldes cheios devidamente tampados, e não haverá problema algum — nem cheiro, nem moscas, nada.

O tamanho da composteira pode variar, mas um tamanho de 1 metro cúbico é geralmente adequado. Elas podem ser construídas de tábuas de reuso, como tábuas de construção ou de pallets. As composteiras devem ser bem feitas, para que resistam por todo o período de enchimento e compostagem (cerca de um ano, ao todo). Como geralmente usamos madeiras reaproveitadas, na maioria das vezes de pinus, que apodrecem facilmente, geralmente as tábuas não podem ser usadas mais do que uma ou duas vezes, tendo que ser substituídas. Se você usar madeiras mais resistentes ou tratadas, talvez possam ser usadas por vários anos.

As composteiras devem ser construídas fora da casa, mas não muito longe, para facilitar o manejo. Convém provê-las com uma cobertura, para evitar o ressecamento excessivo na estação seca, e encharcamento na estação chuvosa.

Você pode construir composteiras isoladas, ou um módulo duplo com compartimento para armazenar serragem no centro (veja ilustração abaixo). O telhado é provido de calhas e tanque para armazenamento de água de chuva, que pode ser usada na lavagem dos baldes. As composteiras são usadas alternadamente: enquanto você vai enchendo uma, a outra, já cheia, permanece intocada, repousando por todo o período necessário para a compostagem. Caso a composteira em uso se encha antes do período mínimo para abertura da outra, devem ser construídas composteiras adicionais.

composteira em modulo duplo

Ao contrário do banheiro seco vertical, o sistema horizontal é extremamente fácil de adaptar em sua casa — basta tirar a privada do banheiro e colocar um balde no lugar, e construir uma composteira no quintal, trazer alguns sacos de serragem da madeireira ou marcenaria mais próxima, e pronto, já pode começar a usar o seu banheiro seco!

Uma das coisas que fazem este sistema muito interessante e atrativo é o seu baixíssimo custo, já que pode ser feito inteiramente com materiais reaproveitados. Você não precisa e nem deve comprar um balde novo. Há diversos produtos que são comercializados em baldes de tamanho adequado (15 a 25 litros), como margarina para uso industrial, impermeabilizante para concreto, cloro para tratamento de água, graxa, etc. Em geral, são produtos de uso industrial ou para construção, então você vai ter que ir aos lugares certos para obtê-los, como construções em andamento, indústrias, grandes postos de serviços, etc. Muitas vezes, esses baldes podem ser encontrados em depósitos de sucatas e materiais recicláveis. Em minha cidade, a opção mais fácil são os baldes de margarina (15 kg), usados pelas padarias.

Esses baldes costumam ser de excelente qualidade, muito fortes e duráveis, e com tampas realmente herméticas, e em geral podem ser obtidos a custos muito baixos — com sorte, até de graça! O mesmo pode-se dizer dos demais materiais necessários ao uso deste modelo de banheiro seco: as madeiras para construir as composteiras podem ser obtidas a custo virtualmente zero, se você usar tábuas de construção descartadas, ou madeiras de pallets quebrados, e a serragem também, geralmente, você pode obter de graça (ou quase) em madeireiras e marcenarias.

 

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(O livro “Manual Humanure”, de Joe Jenkins, é a referência mais completa sobre este assunto, sendo geralmente considerado uma espécie de “bíblia do banheiro seco”.)

 

Referências:

* Germer, J. et al. Temperature and deactivation of microbial faecal indicators during small scale co-composting of faecal matter. Waste Management. 2010.

** Jensen, P. K. et al. Survival of Ascaris eggs and hygienic quality of human excreta in Vietnamese composting latrines. Environmental Health. 2009.

*** Kakimoto, T.; Funamizu, N. Factors affecting the degradation of amoxicillin in composting toilet. Chemosphere. 2007.

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