Bioconstrução — a técnica do COB

cob 1

O cob é provavelmente a mais rústica, primitiva, simples e natural técnica de bioconstrução — daí sua beleza! É também uma técnica incrivelmente flexível, e ao mesmo tempo robusta e segura, desde que bem feita. A técnica do cob consiste essencialmente em se esculpir a sua casa, ou pelo menos suas paredes, com barro, no melhor estilo joão-de-barro!

Uma das vantagens do cob é sua extrema plasticidade, ou seja, a liberdade que ele oferece de construir em estilos e formatos variados. Você pode construir desde uma casa “normal”, quadradinha, retinha e lisinha que ninguém suspeitaria ser feita de barro (exceto talvez pela espessura das paredes), até habitações com os formatos mais alternativos e não convencionais (desde que respeitados os limites da física, claro).
Apesar de sua desconcertante simplicidade e primitividade, o cob é uma técnica extremamente segura e durável. Casas de cob podem durar muitos séculos, sem problema algum.

cob interior

Construindo com cob

O barro

Uma das coisas legais sobre as construções de terra é poder fazer a casa usando a terra do próprio local onde ela será construída. Devem ser usados solos areno-argilosos livres de matéria orgânica (ou seja, excluindo-se a camada de solo superficial). A proporção ideal de areia:argila é algo em torno de 2:1 (duas partes de areia para uma de argila). Porém, essa proporção é bastante flexível, e solos com teor de argila entre 15 e 50% podem ser usados sem problemas. Na prática, isso significa que a grande maioria dos solos areno-argilosos são adequados para construir com cob.

Deve-se ter o cuidado de obter o barro de forma que não cause impacto ambiental ou paisagístico, por exemplo por implicar em desmatamento, ou propiciar erosão, ou desfigurar a topografia ou a paisagem, etc. A fonte do barro também deve ser o mais próxima possível do local da construção, diminuindo assim os custos e impactos relativos ao transporte, já que a quantidade de material para qualquer construção é substancial. Uma opção inteligente é, ao escavar reservatórios de água, como lagoas, açudes e cisternas, utilizar a terra removida para a construção. Outra fonte extremamente inteligente de barro para construção são as bacias de infiltração de águas pluviais (aquelas que coletam o escorrimento superficial de estradas de terra). Com a inevitável erosão da estrada, essas bacias coletam, além da água, terra. Assim, para que continuem funcionando, essas bacias têm que ser periodicamente “limpas”, o que significa um suprimento de barro que pode perfeitamente ser utilizado para bioconstrução.

Preparo do barro

Deve-se preparar um local plano e limpo para misturar e amassar o barro, o mais próximo possível do local da construção. Você traz o barro para esse local, quebra os torrões (se houver) usando uma enxada, adiciona a palha e outros aditivos (se for o caso) e água, e vai “virando” esse barro com a enxada. Em seguida, deve-se “amassar” bem o barro com os pés — para muitos, esta é a parte mais divertida da construção com barro! Pode-se amassar em grupos, e às vezes se mistura esta tarefa com música e danças improvisadas, tornando-se uma verdadeira festa!

Misture e amasse o barro, ajustando o teor de água até ficar com uma consistência relativamente firme, porém plástica. Se estiver muito duro e esfarelando, é indicativo de falta de água; mas, se estiver muito mole, escorrendo, é sinal de excesso de água. Acertar no teor de umidade é muito importante, pois uma massa muito seca não dará boa aderência, e a parede ficará muito porosa e fraca. Por outro lado, excesso de umidade (consistência de lama) fará com que a parede, ao secar, rache excessivamente.

Aditivos

Construções perfeitamente boas podem ser feitas apenas com a terra, conforme descrito acima. Porém, embora não seja estritamente necessário, a maioria dos bioconstrutores do presente e do passado, em todas as épocas e regiões do mundo, têm incluído aditivos à massa de barro para melhorar suas características e a qualidade da construção. Os principais aditivos são a palha e estrume bovino fresco.

  • Palha. A adição de palha pode aumentar a resistência da construção e reduzir sua tendência a rachaduras. Para isso, pode-se ceivar, roçar ou mesmo arrancar capim, deixá-lo secar ao sol por alguns dias, e depois picá-lo em pedaços de 3 a 5 cm, usando para isso um facão afiado e um bloco de madeira (ou um triturado de capim, claro, se disponível). Adicione essa palha à massa de barro; você perceberá que a adição de palha deixa a massa mais seca, fazendo necessária também a adição de mais água para atingir a consistência ideal para construção. O ideal é usar capins de folhas finas, e podem ser usados restos de culturas como arroz e trigo. Evite capins de folhas largas ou talo muito grosso (capim-elefante, por exemplo). A quantidade a ser usada varia, mas como ponto de partida pode-se usar uma proporção de aproximadamente 1:10, em volume (uma parte de palha para dez de barro).
  • Estrume bovino fresco pode ser adicionado, a uma proporção de 2 a 5% da massa de barro, para aumentar sua resistência mecânica e à erosão. Estrume é um aditivo extremamente tradicional em construções de terra. Acredita-se que o muco e fibras vegetais contidas nas fezes sejam os responsáveis por melhorar as características do barro. Embora o estrume de vaca seja o mais comum, por ser normalmente o mais abundante, você pode também usar estrume de outros grandes herbívoros, o que estiver à sua disposição.

Construindo a parede

Tome porções da massa de barro com ambas as mãos e aplique com um golpe ágil sobre a base de pedra, formando uma camada de cerca de 10 cm de altura, e da largura que se pretende dar à parede, por todo o contorno da casa e também as paredes internas. Estruturas acessórias como sofás, prateleiras, lareiras, etc. também podem ser construídas de cob concomitantemente, em uma estrutura inteiriça com as paredes! Mas isso não é necessário, você também pode deixar para construir essas coisas depois que a casa estiver pronta.

Ao se aplicar cada “mãozada” de barro, deve-se massagear ligeiramente, dando tapas, pancadas e pressionando com os dedos para moldar e obter uma melhor fusão entre os bolos de barro. Terminada a primeira camada, você pode iniciar uma nova camada sobre ela. Você pode fazer até umas 2 ou 3 camadas em um dia. Então, é necessário esperar que o cob seque e endureça o suficiente antes de aplicar mais camadas — geralmente 2 a 3 dias, dependendo da temperatura e umidade, ocorrência de chuvas, etc. É bom proteger o topo das paredes de com com uma lona plástica ou fardos de palha, etc. ao final do dia de trabalho, em caso de chuvas. No início de um novo dia de trabalho, enquanto se prepara a masseira, deve-se molhar o topo da parede de cob algumas vezes, até que fique bem úmida para possibilitar melhor adesão com a nova camada de barro.

Os batentes de portas e janelas devem ser instalados preferencialmente conforme a construção das paredes prossegue. Instalações para fiações elétricas e tubulações de água também devem ser planejadas com antecedência e feitas concomitantemente à construção das paredes, para maior praticidade.

construindo com cob

A grossura da parede varia bastante, em função principalmente do peso a ser suportado, ou seja, a altura da construção, se terá um ou mais andares, peso do telhado, etc. Normalmente usa-se uma largura de no mínimo 25 cm para construções bem simples e baixas; 40 cm para uma casa térrea, e mais larga para construções de mais de um andar. Geralmente constroem-se paredes mais grossas na base, afinando progressivamente conforme a parede vai subindo, diminuindo cerca de 2 a 3 cm de grossura a cada metro de altura.

Vigas para o telhado repousam diretamente sobre o cob. Caso se julgue necessário, dependendo do tamanho e peso das estruturas do telhado, pode-se fazer as paredes mais grossas nos pontos de sustentação das vigas, formando uma estrutura de reforço (coluna de cob).

Acabamento

As paredes esculpidas à mão invariavelmente ficam com uma superfície bastante irregular e rugosa. Algumas pessoas podem gostar desse aspecto rústico, mas você pode deixá-las bem mais lisas e regulares desbastando-as com uma lâmina metálica, que pode ser um facão, por exemplo. Aí, ela estará pronta para receber o reboco e pintura.

Existe um princípio que diz que materiais semelhantes têm afinidade entre si. Por isso, não se deve nunca utilizar massa de cimento para rebocar construções de terra. Além de não aderir direito, as diferenças de rigidez e respirabilidade fazem com que rebocos de cimento rachem e descasquem das bioconstruções em pouco tempo. Por isso, deve-se sempre usar materiais naturais também para o acabamento.

O reboco natural pode ser feito com uma massa de barro muito semelhante à do cob em si, mas com ingredientes mais finos, peneirados. Inúmeras variações são possíveis, mas uma receita básica para reboco seria um barro com proporção areia fina:argila de cerca de 2:1, e estrume fresco de vaca peneirado numa proporção de 10 a 20% do total da massa. Além da função estética, o reboco reduz a poeira no interior da casa e protege as paredes externas da erosão. Variações na proporção de areia e argila, na granulometria da areia e aditivos como fibras vegetais e outras, assim como a técnica de aplicação com pincel, mãos, espátulas etc., podem ser usadas para dar texturas diferentes ao reboco.

Para pintura, pode-se utilizar a cal para pintura, pois adere muito bem às paredes de barro e oferece ótima proteção contra as intempéries. Aplique várias demãos, formando uma camada grossa de cal.

Outra ótima opção são as tintas de terra. Fazer tinta de terra é muito fácil: basta peneirar bem a terra e adicionar uma mistura de cola branca e água até dar uma consistência pastosa fina, e aplicar às paredes com brochas ou rolos, como qualquer outra tinta. Você pode usar praticamente qualquer tipo de terra, não importando muito o teor de areia e argila, desde que não seja areia pura. Existem terras de inúmeras cores diferentes: amarelas, vermelhas, pretas, brancas, cinzas… além é claro de todos os tons de marrom, o que te dá várias possibilidades na confecção da tinta. Você ainda pode adicionar pigmentos naturais, como urucum, ou corantes artificiais para atingir outras cores e tonalidades. A proporção de cola e água é bastante flexível, indo de 1:2 até 1:10, de acordo com o tipo de solo e a resistência que se quer dar à tinta.

O acabamento com reboco e tinta de terra descrito acima serve não apenas para cob, podendo ser usado igualmente para todas as outras técnicas de construção com terra.

 

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* O livro “The Cob Builders Handbook”, de Becky Bee, é leitura obrigatória para quem deseja se aprofundar nesta técnica de bioconstrução.

2 comentários em “Bioconstrução — a técnica do COB

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