Como construir uma lagoa artificial para água da chuva a baixo custo!

A principal forma de armazenamento superficial de água de chuva em propriedades rurais para usos diversos é na forma de lagoas artificiais. Elas são extremamente versáteis e incrivelmente úteis. Com elas, pode-se armazenar volumes muito expressivos de água. Elas podem servir a inúmeros propósitos, tais como abastecimento doméstico, irrigação, aquacultura, criação de microclimas, paisagismo, recreação, fomento à vida selvagem, etc.

Teoricamente, qualquer lagoa pode ser escavada à mão, com enxadões, pás e carrinho de mão, etc. Porém, trata-se de um trabalho árduo e demorado. A não ser que se trate de uma lagoa bem pequena, ou você tenha à sua disposição um bom número de pessoas dispostas e motivadas e não tenha pressa, o mais comum é escavar com maquinário pesado, como retroescavadeiras, pás carregadeiras ou tratores de esteira.

Lagoas de água de chuva devem ser rigorosamente impermeabilizadas, pois qualquer perda por penetração da água ou vazamentos pode significar uma lagoa vazia no meio da estação seca. A forma mais simples e garantida de impermeabilizar uma lagoa é com a instalação de uma lona plástica. Lonas plásticas são 100% impermeáveis, mas são fotodegradáveis, o que significa que, se ficarem expostas à radiação solar, deterioram-se e rompem-se em questão de poucos anos. Porém, se protegidas do sol, podem durar virtualmente para sempre. Por isso, a lona plástica deve receber uma cobertura permanente de terra.

Antes da instalação da lona, o interior da lagoa deve ser adequadamente preparado. As laterais devem ser feitas em “degraus”, com plataformas planas de no mínimo 20 cm de largura, e taludes com inclinação máxima de 45° e altura de cerca de 45 cm. Esse formato é importante para permitir que a terra permaneça sobre a lona, ao invés de escorrer toda para o fundo da lagoa na primeira chuva forte.

interior lagoa
O interior da lagoa deve ser bem compactado com soquetes ou mesmo com os pés. Quaisquer tocos ou pedras devem ser cuidadosamente removidos, e a superfície interna deve ficar bem lisa, para evitar danos ou ruptura na lona plástica.

Também, antes de se instalar a lona plástica, é necessário preparar o local onde será construído o canal de entrada de água. Este é uma depressão na lateral da lagoa em forma de canaleta, com dimensões e capacidade superiores às do canal de captação. Como o próprio nome já diz, é por ele que a água entrará na lagoa. O canal de entrada deve ser escavado cuidadosamente, mantendo-se o padrão de degraus, e suas bordas devem ser elevadas para ajudar a confinar o fluxo de entrada de água dentro do canal, mesmo em dias de chuva muito forte.

Preparado o interior da lagoa, procede-se à instalação da lona plástica. Há tipos de lona específicos para impermeabilização de lagoas, muitas vezes comercializados com o nome de “geomanta” que, embora apropriados para esse fim, infelizmente costumam ser substancialmente caros. Como alternativa, pode-se usar uma lona plástica de PEAD (polietileno de alta densidade) de 200 μm de espessura, daquelas normalmente usadas para cobrir silos. Essas lonas custam uma pequena fração do preço das geomantas e podem ser perfeitamente eficientes, mas são mais frágeis e, por isso, requerem cuidado redobrado para evitar rupturas, e proteção contra o sol. Além do custo, têm a vantagem de serem mais fáceis de se obter e instalar, e de representarem um consumo reduzido de plástico.

A lona deve cobrir todo o interior da lagoa, ultrapassando o limite das margens e o topo da barragem em cerca de 50 cm. Muitas vezes não é possível cobrir toda a lagoa com uma única lona plástica. Pode-se usar fita adesiva tipo “silver tape” para fazer emendas, bem como reparos. Deve-se cuidar para que a lona fique perfeitamente ajustada ao interior da lagoa.

A lona deve ser coberta com uma camada de terra de, no mínimo, 10 cm de espessura. Deve ser usado solo areno-argiloso, misturado com capim picado, que ajuda a estabilizar a camada de terra, evitando que escorra. Pode ser necessária a correção de acidez e fertilização da terra antes de usar para cobrir a lona, pelo menos sua camada mais superficial, para permitir o crescimento de plantas dentro e fora da água, estabilizando definitivamente a camada de terra que protege a lona. As plantas aquáticas serão também importantes para a criação e manutenção de um ecossistema aquático equilibrado e saudável, melhorando a qualidade da água, permitindo a produção de peixes, rãs, etc. Isso é vital para evitar a proliferação de mosquitos.

O canal de entrada de água na lagoa é um ponto crítico. Ele deve ser construído com pedras e argamassa de cimento (ou, alternativamente, manilhas, canaletas de concreto, ferrocimento, etc.), de forma que comporte e conduza de forma segura a água para dentro da lagoa, sem transbordar, evitando assim qualquer erosão dentro da lagoa, com exposição da lona plástica.

canal de entrada

O excesso de água deve deixar a lagoa por um canal de saída ou dreno. O canal de saída é uma parte crucial de todo armazenamento de água de chuva, e deve ser planejado, construído e mantido cuidadosamente. Quando armazenamos água da chuva, nós captamos escorrimento superficial de uma grande área. Em chuvas fortes, isso pode causar a concentração de grandes volumes de água, excedendo a capacidade de armazenamento de nosso sistema, o que significa que ele irá transbordar. Agora, nós nunca podemos deixar que essa água “decida” por onde ela vai correr, pois ela sempre decidirá correr pelo caminho mais curto, ou seja, pelas descidas mais íngremes, com imenso potencial de causar danos, especialmente na forma de erosão, além de danificar instalações, plantações, etc. Para evitar esse tipo de problemas, devemos conduzir a água excedente de forma suave através do terreno, até onde ela deve ir. Algumas pessoas pensam logo em usar tubos, mas na maioria dos casos a melhor forma de conduzir essa água é na superfície, através de curvas em desnível semelhantes às usadas para captação da água. O posicionamento e construção do canal de saída devem ser orientados com uso de um nível de mangueira, para garantir que o ponto de saída da água seja realmente o ponto mais baixo da margem da lagoa, estando no mínimo uns 50 cm mais baixo que a altura da barragem (ou mais, no caso de lagoas grandes). Isto é crucial para evitar que a água transborde por sobre a barragem, o que causaria erosão e danos à barragem, e possivelmente até sua ruptura, com graves consequências. Os canais de saída são feitos na forma de uma curva em desnível com caída de 1 a 2%, zigue-zagueando pelo terreno, conduzindo a água suavemente até a próxima lagoa do sistema. Por fim, devem conduzir a água até uma “lagoa seca”, não impermeabilizada, onde a água poderá penetrar, indo abastecer o lençol freático.

Conforme já citado, a captação é feita através de canais, na forma de curvas em desnível que direcionam a água de escorrimento superficial do solo para dentro do reservatório (lagoa). A construção dos canais é simples: começando do ponto de entrada de água na lagoa, você traça no terreno, usando um nível de cavalete e estacas, uma linha sobre o solo com uma inclinação de 1 a 2%, com caída para a lagoa. A linha formada pela união dos pontos (estacas) marcará o local onde você deve escavar o canal. Você pode ter 2 canais, formando os braços direito e esquerdo da sua captação, que trarão toda a água de escorrimento superficial da seção do morro acima dos canais, conduzindo-a à lagoa. Os canais podem ser escavados com trator ou à mão, com enxadões.

Muitas vezes, você terá em seu terreno uma grota, uma depressão linear no terreno escavada pela água da chuva onde se concentra o fluxo das enxurradas e, portanto, sempre que chove passa por ali um enorme volume de água. Isso representa claramente uma ótima oportunidade de captação de água. Porém, não se deve nunca tentar represar a água na grota em si. Isso porque o local onde se forma a grota é sempre a porção mais íngreme do terreno, devendo ser evitado, conforme já mencionado. Ao invés disso, você deve construir a lagoa num local de topografia mais amena, e apenas um fosso de captação na grota (ou seja, uma pequena escavação e uma parede reforçada com pedras, pneus, sacos de terra, concreto, etc.), conduzindo essa água através de uma curva em desnível até a lagoa conforme descrito acima.

Escave um pequeno fosso, talvez com 1,5 m de diâmetro por 1 m de profundidade, ao final do canal de captação, logo antes da entrada na lagoa. Esse fosso não deve ser impermeabilizado. Ele servirá para reter terra, areia, restos vegetais ou quaisquer materiais carregados com a água, evitando que entrem e se acumulem na lagoa. O fosso deve ser limpo periodicamente, com remoção dos materiais retidos.

fosso seco

Terminada a construção da lagoa, plante grama ou de preferência várias espécies herbáceas nativas do local na camada de terra que recobre a lona plástica — as raízes das plantas são a forma mais efetiva de fixar a terra no local, evitando que escorra com as chuvas. Plante também plantas aquáticas, como aguapés e taboas, etc., no interior da lagoa, uma vez que esteja cheia. Rãs e pererecas virão espontaneamente habitar a lagoa, mas você também pode introduzir peixes, pitus, etc.

Agora, um detalhe muito importante de segurança: você deve cercar bem a sua lagoa, com uma boa cerca de arame ou alambrado. Isso é vital para a segurança das pessoas, pois sempre há riscos de afogamento, e também para proteção da lagoa em si — você não vai querer um animal grande e pesado como uma vaca ou cavalo entrando na sua lagoa, e danificando a lona plástica com seus cascos! Mesmo que você não tenha esses animais, é sempre possível que alguém esqueça uma porteira aberta, ou os animais do seu vizinho atravessem a cerca e entrem no seu terreno — esse tipo de ocorrência é extremamente comum na zona rural. Por isso, cerque bem sua lagoa, e você viverá muito mais tranquilo.

Por fim, plante árvores em volta da lagoa, para fazer sombra na água, mantendo-a fresca e evitando evaporação excessiva, e dando um efeito paisagístico agradável. Em climas frios, plante árvores caducifólias no lado ensolarado, permitindo que o sol aqueça a água no inverno.

 

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