Como a permacultura pode mudar o mundo? Entrevista com David Holmgren

Por ser um sistema que promete suprir as necessidades humanas ao mesmo tempo em que conserva os recursos naturais, protege o meio ambiente e ajuda na recuperação de ecossistemas, a permacultura tem o óbvio potencial de mudar o mundo e, no melhor dos casos, evitar o colapso da civilização, a ruína da humanidade e do ambiente natural no planeta Terra.

Porém, como alcançar este grandioso objetivo? Não parece razoável assumir que um único indivíduo, seja eu ou você, começando uma horta ou captando água da chuva dos telhados, ou iniciando um projeto de autossuficiência na zona rural, tenha qualquer chance de mudar os rumos do mundo, não é mesmo? Claro que isso pode e certamente terá grande efeito na vida da pessoa que o fizer, podendo trazer uma grande realização pessoal e verdadeiro sentido à vida. Mas, em relação a uma perspectiva global, quais seriam as chances de a permacultura realmente fazer alguma diferença?

David Holmgren, co-fundador da permacultura, parece ter a resposta para essa questão. Em entrevista a Robyn Rosenfeldt, da revista “Pip Magazine”, ele explica:

“…A outra forma de pensar na permacultura é como uma forma de mudar o mundo, porque muitas pessoas motivadas pela permacultura a veem com uma atitude de ‘nós podemos mudar o mundo de uma forma positiva’, ao invés de viver tentando parar o mundo que nós não queremos. A permacultura sempre teve uma postura de ‘como podemos criar o mundo que nós queremos’.

“Quando se trata de mudar o modo como a sociedade funciona, a maioria das pessoas pensam em maneiras de mudar políticas públicas — como influenciar os círculos do poder de forma a mudar o funcionamento das grandes estruturas da sociedade. Mas essa é uma maneira velha, ultrapassada de mudar o mundo. A maneira nova, que já está bem comprovada, é mudar você mesmo, sua vida, e o que você faz. O que muitos dos estudiosos e pessoas que pensam em como podemos fazer para mudar o mundo ainda não se tocaram é que na verdade, ao mudar você mesmo, isso não representa apenas uma pequena contribuição para uma mudança em maior escala — na verdade, isso talvez seja a coisa mais poderosa que você pode fazer.”

A proposta de Holmgren é equivalente àquela famosa citação, frequentemente atribuída a Ghandi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo.”

Ele continua:

“E alguns dos motivos para isso: se você tem uma estratégia ou qualquer coisa em permacultura, desde construir sua própria casa até uma agricultura apoiada pela comunidade, até o simples fato de produzir sua própria comida no seu quintal; quando você faz algo para si mesmo e se beneficia disso, e aquilo reflete as éticas e princípios da permacultura, você está fazendo algo para si mesmo e também reduzindo seu impacto negativo no mundo. Mas, por estar fazendo algo que te traz benefícios, isso é potencialmente atrativo para outras pessoas que podem pensar: ‘ah, eu vou fazer isso também’… enquanto aquela pessoa amarga que está apenas fazendo algo para tentar compensar por nossos pecados no mundo não é muito atrativa para muitas outras pessoas. Você sabe, uma pequena proporção das pessoas são motivadas por esse tipo de atitude — a maioria das pessoas quer ser beneficiada de alguma forma e, especialmente, querem benefícios diretos. Então, as estratégias da permacultura são atrativas para os seus adeptos, e oferecem exemplos que outras pessoas podem copiar. E para fazê-lo, geralmente não se necessita de permissão de autoridades, ou bancos para obter financiamentos, etc. E isso é realmente importante, porque muitas dessas mudanças, se feitas por uma parte da população, representam uma ameaça real a muitas das estruturas de poder da sociedade, muitos desses sistemas centralizados: as corporações, governos e seus contribuintes… Então, eu entenderia que muitas dessas coisas de autossuficiência e empoderamento associadas com a permacultura são realmente subversivas. Portanto, se essas ideias e atitudes realmente ‘pegarem’ de uma forma ampla, elas poderiam não apenas não contar com qualquer apoio, mas de fato sofrer tentativas de impedimento.

“Quando se trata de alguma tecnologia muito avançada, ou projetos em larga escala, é fácil para os detentores do poder dizer: ‘não, você não pode fazer isso’. E nós podemos ver a guerra entre energias renováveis versus combustíveis fósseis. Mas se é algo que você pode fazer em casa, é muito difícil impedir. Além disso, essa replicação permite uma evolução muito rápida onde você pega um exemplo de alguma coisa, e você aprimora; então, vem alguém e copia, e modifica e aperfeiçoa, então você tem uma evolução progressiva. Se nós fizéssemos grandes projetos que são todos motivados por conceitos de sustentabilidade mas representam imensas realocações dos recursos da sociedade, isso sempre termina em bagunça, porque de algum modo a complexidade dessas coisas… Você pode ter as ideias, mas quando você vai realmente pôr em prática, nunca dá tão certo. Então, a replicação em pequena escala, ao invés de projetos grandes, gigantes, além de ser muito mais viável, é um bom processo de aprendizado, e também permite que as pessoas adaptem as soluções a situações diferentes, e isso é muito importante, porque cada situação é diferente. E então, quando você consegue mais pessoas fazendo isso, isso lhe dá, se quiser ver dessa maneira, mais poder de barganha; você diz: ‘olha, todos nós aqui estamos fazendo isso…’ Você tem uma certa base de poder através da autonomia, e não uma base de poder tentando fazer barulho para fazer as autoridades mudarem as políticas, porque essa é realmente uma abordagem que não tem força alguma. E nós podemos ver nos últimos 30 anos como movimentos populares conseguiram mudanças em políticas públicas… mas tem sido cada vez mais difícil conseguir essas mudanças, e requerido cada vez mais recursos desses movimentos. Então, por que nós simplesmente não fazemos algo por nós mesmos e com nossos próprios recursos, e damos um exemplo para os outros? Esse é verdadeiramente o impulso para uma mudança positiva maior.”

 

Confira a entrevista na íntegra (em inglês).

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